Democracia:

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"Ensina-me SENHOR a ver as minhas próprias faltas e apaga-me a vocação de descobrir as faltas alheias." Emanuel

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Europa

A Europa em marcha-à-ré
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Antonio Martins
– 23/11/2010
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Quebra da Irlanda confirma: “resposta” europeia à crise é a pior possível. Mas retrocesso continua, porque faltam alternativas e há um ganhador oculto: a poderosa máquina de exportação da Alemanha
Depois de semanas de relutância, o governo irlandês jogou a toalha domingo e pediu socorro à União Europeia (UE) e ao FMI. Receberá, nos próximos meses, um empréstimo que poderá chegar a 100 bilhões de euros. Como de praxe nestas operações, nenhum centavo irrigará a economia, muito menos a sociedade: tudo será destinado para remunerar os credores do país.
Aos irlandeses, caberá uma nova rodada de sacrifícios. Nos últimos meses, eles já haviam sido levados a aceitar um corte brutal nos direitos sociais (inclui reduções de salários e desmantelamento da assistência médica gratuita aos idosos, como mostra nossa matéria a respeito) e o resgate, pelo Estado, de três grandes bancos quebrados. Novas medidas serão anunciadas em 5 de dezembro. Mantidas em sigilo, elas parecem graves a ponto de levarem o primeiro-ministro, Brian Cowen, a prometer, para o início do próximo ano, eleições antecipadas – que provavelmente liquidarão seu mandato, mas não diminuirão o retrocesso social.
A quebra da Irlanda segue-se à da Grécia e, salvo em caso de reviravolta, será acompanhada em breve pela de Portugal e da Espanha. Itália e a própria Inglaterra – um dos grandes centros financeiros do mundo – estão intranquilas. A Europa, que no pós-II Guerra estabeleceu formas inovadoras de criar e distribuir riqueza e instituiu o Estado de Bem-Estar Social, agora trocou de papéis. É a região do mundo de onde vem a resposta mais conservadora, burocrática e retrógradas à crise global.
Ela tem dois pilares. O primeiro é a crença na ideia simplória segundo a qual os Estados devem responder a uma crise financeira grave cortando despesas. Logo após a queda da bolsa de Nova York, em 1929, esta postura foi adotada pela maior parte dos países ricos, após a quebra da bolsa. Projetou a economia mundial numa depressão profunda, que suscitou desemprego em massa, guerras comerciais, ondas de nacionalismo xenofóbico e… o nazi-fascismo.
Nos desdobramentos da crise iniciada em 2008, sobressaem três respostas. Em países como a China e o Brasil, os Estados procuram reanimar a economia por meio de investimentos sociais (aumento dos salários e benefícios), em infra-estrutura ou ambos. Nos Estados Unidos, prevalece uma postura mista. Barack Obama propôs uma reforma avançada no sistema de Saúde (que conseguiu emplacar parcialmente), mas também fala em cortar gastos públicos. Além disso, aposta num crescimento ainda maior da capacidade militar dos EUA (veja artigo de José Luís Fiori a respeito), e manobra com o poder de “criar” riqueza imprimindo a única moeda de circulação global.
No Velho Continente, não há sequer esta ambiguidade. O Banco Central Europeu, que também teria capacidade de irrigar a economia, recusa-se a fazê-lo. Os Estados-membros da UE quase não têm margem para estimular suas próprias economias – porque estão constrangidos pelas normas comuns do bloco, que os impedem de se endividar. E os órgãos que dirigem a União recusam-se a adotar políticas de investimento em direitos sociais ou obras públicas.
O resultado é uma camisa-de-força que deixa aos Estados nacionais, como única saída, o segundo pilar da “resposta” europeia à crise: um ataque generalizado aos direitos sociais e serviços públicos (veja nossa reportagem e, ao final, exame das medidas adotadas em cada país). Os resultados são os previsíveis. Como demonstrado no século passado (e nas crises cambiais latino-americanas, entre as décadas de 1980 e 2000), os “ajustes fiscais” golpeiam a sociedade, mas nunca satisfazem os credores. Cada concessão é vista como uma demonstração de fraqueza e um sinal de que é possível exigir ainda mais. Nesta segunda-feira (22/11), logo após a capitulação da Irlanda, os mercados financeiros passaram a exigir, de Portugal e Espanha, taxas de juros ainda mais elevadas para a rolagem de suas dívidas.
Dois fatores ajudam a entender por que a Europa sucumbe a esta espiral regressiva. O primeiro é uma crise profunda da esquerda institucional — que parece, em suas diversas vertentes, presa ao século passado. A social-democracia esteve no governo de quase todos os países europeus, ao longo das duas últimas décadas. Ao fazê-lo, numa época em que o neoliberalismo era hegemônico, comprometeu-se diversas vezes com políticas de corte de direitos semelhantes às atuais – ainda que mais brandas. Não é capaz, agora, de enxergar, que a crise reembaralhou as cartas, que respostas novas são possíveis, que é permitido ousar. Na Grécia, em Portugal e na Espanha, as medidas brutais que estão violando o Estado do Bem-Estar Social são adotadas por partidos “socialistas”.
Mas a esquerda radical não é muito diferente, na insensibilidade aos novos tempos. Com as possíveis exceções de Portugal e da Alemanha, continua presa apenas à denúncia e à resistência. Sem ambição para formular alternativas, sem pique para dialogar com setores sociais emergentes, que se orientam por lógicas não-convencionais para os europeus: os imigrantes, por exemplo.
O segundo motor que empurra e Europa para trás é concreto e poderoso. Desde 2009, quando reelegeu-se com base num governo claramente à direita, a chanceler alemã Angela Merkel tem sido a defensora destacada das políticas de “ajuste fiscal” e “austeridade”. Não o faz por mera defesa de valores ideológicos. A economia da Alemanha está posicionada de modo muito particular, na conjuntura que se abriu após a crise.
Há um setor exportador muito robusto, que tira proveito inclusive do desenvolvimento acelerado dos países do Sul. Produz bens de capital sofisticados – máquinas necessárias para o avanço da indústria ou o desenvolvimento da infra-estrutura em países distintos como China, Índia, Angola, Brasil. Ou vende bens de luxo (automóveis Mercedes-Benz ou BMW, digamos) para os novos ricos que estão surgindo nos “mercados emergentes”.
Basta uma rápida consulta aos números da macroeconomia mundial para demonstrar o fenômeno. No período de doze meses encerrado em setembro, a Alemanha obteve o maior superávit comercial do planeta: 210 bilhões de dólares, 20% superior ao da tão falada China e em absoluto contraste, por exemplo, com os déficits da França (- US$ 69,6 bilhões), Reino Unido (-142,8 bi) ou Espanha (-72,9 bi). Impulsionada por este movimento, a economia alemã cresceu 9% no terceiro trimestre do ano – enquanto o resto da Europa vive dificuldades crescentes.
Para grandes empresas germânicas – e para os planos de médio prazo de Angela Merkel (ela só terá de submeter-se a eleições em 2003) – interessa consolidar a posição da Alemanha como grande exportador mundial. A redução de direitos sociais e salários contribuem para tanto: refreiam a capacidade de adquirir produtos importados e barateiam a produção. Neste exato momento, as federações empresariais alemãs estão estimulando seu governo a ampliar os incentivos à imigração de trabalhadores semi-qualificados, como forma de combater o aumento do salário-mínimo, reivindicado pelas centrais sindicais…
Em contraste com as hesitações e incertezas da esquerda, Angela Merkel tem um projeto: quer achatar os custos de produção em toda a Europa, comprimindo principalmente os direitos sociais, e garantir competitividade internacional a longo prazo para as grandes empresas do continente – com clara liderança alemã. É uma aposta extremamente arriscada: para que ela triunfe, será preciso passar por cima de seis décadas de lutas e conquistas dos trabalhadores e sociedades europeias. Derrotar tamanha regressão é perfeitamente possível: a chanceler enfrenta dificuldades políticas em seu próprio país. Mas falta, para resistir, algo essencial: um projeto alternativo.
Tags: ajustes fiscais, crise financeira, Irlanda, União Européia
(Le Monde Diplomatique)

Válter Pomar

Valter Pomar: Comemorar muito, mas de sandálias
Nossa avaliação das eleições presidenciais de 2010 deve começar sempre com uma tripla comemoração e com um forte agradecimento. Comemoração pela continuidade do processo de mudanças iniciado em janeiro de 2003, pela eleição da primeira mulher presidente da República e por termos derrotado mais uma vez a direita demotucana.

por Valter Pomar*
Agradecimento ao povo de esquerda, especialmente ao povo petista, milhões de brasileiros e brasileiras, alguns anônimos, outros nem tanto, que perceberam o perigo e foram à luta, sem pedir licença, sem pedir ordem, sem pedir autorização e sem precisar de orientação.

Foi principalmente este povo que ganhou a eleição presidencial, e não governantes, candidatos, dirigentes, coordenadores ou marqueteiros.

Devemos agradecer e comemorar, mas sem descuidar de um balanço crítico e autocrítico do processo.

Este balanço deve começar lembrando que vencemos com uma bandeira: dar continuidade à mudança. Como lembrou a própria Dilma, como recebemos uma "herança bendita", nossa única alternativa é aprofundar as transformações.

Ocorre que para vencer, enfatizamos a continuidade e debatemos pouco as mudanças. O tratamento dado ao programa do Partido e ao programa do coligação é apenas mais um sintoma disto.

Debatemos pouco as mudanças, mas o cenário do governo Dilma será muito diferente do que prevaleceu entre 2003 e 2010.

Noutras palavras: a mudança na realidade já está acontecendo, embora não tenhamos debatido em profundidade as mudanças que teremos que fazer na nossa política, para enfrentar esta nova realidade.

As mudanças já se deram e continuarão ocorrendo em três níveis principais.

Internacionalmente, o cenário será dominado não apenas pela crise e instabilidade econômica, mas também por cada vez maior instabilidade política e militar.

Nacionalmente, a direita vai dar continuidade ao tom radical assumido na campanha eleitoral.

Ao contrário do que alguns pensavam, o PSDB é o partido de direita e da direita. Demonstrando uma vez mais a periculosidade da proposta da "aliança estratégica" com o PSDB, feita entre outros por Fernando Pimentel, com os resultados já conhecidos em Minas Gerais.

A terceira mudança é a seguinte: nos marcos da atual estrutura tributária e macroeconômica, não será mais possível ampliar significativamente os investimentos econômicos e sociais.

Ou reduzimos substancialmente os juros, ou fazemos algum tipo de reforma tributária, ou interrompemos o crescimento dos investimentos, ou.... Em qualquer caso, tudo aponta para a agudização do conflito redistributivo no país, seja tributário, salarial, seja pela alta nos preços, pela alta dos juros etc.

Para dar conta destas mudanças, que conformam um novo cenário, teremos que enfrentar e superar três impasses estratégicos.

Primeiro: a política de melhorar a vida dos pobres, sem tocar na riqueza dos milionários, reforça o preconceito de uma parcela dos setores médios contra nós. Pois na prática estes setores perdem, em relação aos pobres, especialmente em termos de status.

Segundo: melhorar a vida material dos pobres, sem melhorar em grau equivalente a sua cultura política, deixa uma parcela dos que melhoraram de vida sujeitos à influência das igrejas conservadoras e do Vaticano, dos meios de comunicação monopolistas e da educação tradicional.

Aqui vale ressaltar que a disputa de valores faz parte da disputa política. Não percebe isto quem acha que fazer política é "administrar", esquecendo que a "percepção das obras" é mediada pela ideologia, pela visão de mundo, pela luta política.

Terceiro: o PT ganhou sua terceira eleição presidencial, mas ao mesmo tempo enfrenta cada vez mais dificuldades para hegemonizar o processo.

Estas dificuldades ficam claras quando analisamos o papel do PT na campanha, na composição do novo governo, na relação com aliados, na relação direta e cotidiana com o povo etc.

Quais são as principais dificuldades do PT?

Primeiro, a terceirização de parte de suas atividades dirigentes, seja para a bancada, seja para o governo, seja para o Lula. Há uma crescente distância entre a influência moral e eleitoral do PT, vis a vis a capacidade efetiva de direção de nossas instâncias.

Segundo, o empobrecimento de nossa elaboração ideológica, programática e estratégica. É preocupante o descompasso cada vez maior, entre a complexidade das questões postas diante de nós, no mundo, na América Latina e no Brasil, vis a vis nossa capacide de refletir coletivamente sobre estes assuntos.

Terceiro, há um processo de "normalização" do PT, de integração ao establishment. Durante muitos anos, o PT cumpriu um papel civilizatório na política brasileira. Pouco a pouco, por diversos motivos, entre os quais o financiamento privado das campanhas eleitorais, fomos nos adaptando a certos hábitos e costumes da política brasileira, dos mais ridículos aos mais graves, entre os quais tratar a eleição como mercado de votos.

Ou reagimos a isto e voltamos a cumprir --como Partido-- um papel civilizatório, reformador e em alguma medida revolucionário nas práticas e costumes da política, ou estaremos fazendo o jogo da direita e da mídia que dia e noite nos calunia.

O que falamos antes ajuda a explicar alguns dos motivos pelos quais uma parcela importante da juventude não se identifica mais conosco. Grandes parcelas da juventude podem ser ganhas por nós, se adotarmos práticas distintas, combinadas com projeto de futuro, ideologia, visão de mundo, programa transformador. Se não fizermos isto, teremos inclusive problemas eleitorais, pois na próxima eleição e na outra, não adiantará comparar nosso governo com o passado, pois para os mais jovens, nós também fazemos parte do passado.

Aqui vale destacar que nossa integração ao establishment não se dá como decorrência automática de nossa conversão em partido de governo. Aliás, ironicamente, as vezes nossos governos são o que há de mais inovador e atraente; enquanto nossas instâncias partidárias vão se transformando em "agências reguladoras" de nossa participação nos processos eleitorais, burocratizadas, sem vida, controladas por esquemas cada vez mais tradicionais.

A quarta dificuldade que enfrentamos está em nossa relação com os aliados.

Precisamos de aliados para vencer eleições e para governar. Mas, nas atuais regras do jogo, a mesma política de alianças que parece cumprir um papel positivo na nossa vitória nacional, não parece contribuir para um salto no tamanho de nossas bancadas parlamentares e no número de nossos governos estaduais. Isto, mantidas as atuais regras do jogo, nos condena a um teto, a um limite de crescimento. E, sem maioria de esquerda no Congresso, qualquer discussão sobre reformas profundas pela via institucional será apenas isso: discussão.

A este problema, cabe agregar um detalhe: apesar de nossa política de alianças, o antipetismo cresce entre os aliados, assim como cresce na sociedade.

Em decorrência das mudanças, impasses e dificuldades que citamos antes, entendemos que a direção nacional deve priorizar o debate sobre a estratégia e a tática do Partido, da qual decorre a política que defendemos para o conjunto do governo, da qual podemos deduzir os espaços que achamos devam ser dirigidos pelo PT. E não, como parecem pretender alguns, começar e terminar o debate pelos tais "espaços".

Na nossa opinião, o Partido deve priorizar quatro temas em 2011: a reforma política, a democratização da comunicação, a reforma tributária e a reorganização do PT.

Em resumo: com a eleição e posse de Dilma, a mudança continua, mas a disputa também.

Continua a nossa disputa contra o neoliberalismo, que não está morto, como se depreende do lobby do setor financeiro em favor de Meirelles, de Palocci, do ajuste fiscal e da alta de juros, para não falar do que ocorre no G20, na Europa e nos EUA.

Continua a nossa disputa contra o desenvolvimentismo conservador, aquele no qual as empresas capitalistas crescem, sem que haja mudanças estruturais na distribuição de poder, renda e riqueza.

E continua a disputa deles contra o PT. Disputa que vamos vencer, se abandonarmos as ilusões no inimigo, a defensividade absoluta e certo medo de sustentar nossas posições históricas e corretas, por exemplo em favor da democratização da comunicação.

A disputa contra o PT é uma disputa em torno do conteúdo da mudança que está em curso no Brasil. É uma disputa de hegemonia. E disputar hegemonia não é igual a fazer concessão, não é igual a ceder ou a recuar sempre. Disputar hegemonia é o contrário disto. Disputar hegemonia é travar uma luta cotidiana e permanente em defesa dos nossos valores, da nossa visão, do nosso projeto de mundo e de Brasil.

*Valter Pomar é membro do Diretório Nacional do PT
Texto baseado na intervenção feita na reunião do Diretório Nacional do PT, dia 19 de novembro de 2010

(vermelho.org)

EUA

Muito longe do equilíbrio. Artigo de José Luís Fiori


"Os EUA optaram pela resposta estratégica que combina a manipulação do valor do dólar com maior presença militar", escreve José Luís Fiori, professor titular e coordenador do programa de pós-graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, em artigo publicado no jornal Valor, 24-11-2010.
Eis o artigo.
"Toda situação hegemônica é transitória, e mais do que isto, é autodestrutiva, porque o próprio hegemon acaba se desfazendo das regras e instituições que criou, para poder seguir se expandindo e acumulando mais poder do que seus liderados".
J.L.F. "O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações" Ed.Boitempo, 2007, p:31
A recente decisão americana de desvalorizar sua moeda nacional não é nova nem surpreendente. Como tampouco, a transferência dos seus custos para o resto da economia mundial, e de forma particular, para a periferia monetário-financeira do sistema. Os EUA já fizeram a mesma coisa, em 1973, quando abandonaram o sistema de Bretton Woods, provocando a primeira grande recessão mundial, depois da II Guerra. As analogias históricas são perigosas e devem ser utilizadas com cautela, mas não há dúvida que a situação e o comportamento atual dos EUA se parecem muito com o que ocorreu na década de 1970. Como naquele momento, uma vez mais os EUA estão envolvidos numa guerra sem solução e enfrentam uma grave crise econômica. E ao mesmo tempo, seu establishment está rachado e sua sociedade está atravessando uma luta política que deve se prolongar por muito tempo. E uma vez mais, os EUA optaram por uma resposta estratégica que combina a manipulação do valor do dólar com uma "escalada" da sua presença militar ao redor do mundo. E não é impossível que ainda façam um acordo estratégico com a Rússia e um acordo de paz com o Irã, envolvendo toda a Ásia Central. E que adotem, novamente, a estratégia do "dólar forte", do final dos anos 70.
Mas é óbvio que existem algumas diferenças fundamentais: por exemplo, a relação econômica dos EUA com a China é totalmente diferente da relação que os EUA tiveram com a URSS, e no século passado não havia nenhum país - nem a Comunidade Europeia - com força para contestar ou resistir às decisões da política monetária americana. Por isso, não é fácil de prever o futuro das novas iniciativas estratégicas dos EUA, mas com certeza, não é necessário que os países latino-americanos repitam os mesmos erros que conduziram à sua estagnação econômica e ao retrocesso neoliberal dos anos 80 e 90, do século passado.
O futuro está aberto e existem múltiplas alternativas sobre a mesa, mas neste momento é necessário que os governantes tenham uma visão estratégica que transcenda o debate puramente econômico, cujos argumentos e alternativas fundamentais se repetem há cerca de 200 anos. A falta dessa visão mais ampla é que explica a repetição - como na década de 70 - de algumas propostas absolutamente ingênuas ou inviáveis, dentro do sistema político-econômico mundial em que vivemos. Como é o caso, por exemplo, de decretar o fim da hegemonia do dólar ou de criar uma nova moeda supranacional, ou ainda, de estabelecer uma meta fixa e consensual para os desequilíbrios das contas correntes nacionais, ou ainda pior, de voltar ao padrão-ouro ou delegar ao FMI a função de governo monetário do mundo. Sem falar nos que acreditam que os EUA e a China possam mudar suas políticas econômicas nacionais, por conta da "pressão amiga". Propostas e expectativas que pecam pelo desconhecimento ou negação ideológica de alguns aspectos centrais da economia política da moeda dentro do sistema inter-estatal e capitalista. Assim, por exemplo:
1) Com o desconhecimento ou negação de que as moedas soberanas não são apenas um "bem público". Envolvem relações sociais e de poder entre seus emissores e os seus detentores, entre credores e devedores, entre poupadores e investidores, e assim por diante. E por trás de toda moeda e de todo sistema monetário esconde-se e se reflete sempre uma determinada equação e correlação de poder, nacional ou internacional.
2) Com o desconhecimento ou negação de que as moedas de referencia internacional não são apenas uma escolha dos mercados. São produto de uma longa luta de conquista e dominação de territórios supranacionais e um instrumento estratégico de poder dos seus estados emissores e dos seus capitais financeiros.
3) Com o desconhecimento ou negação de que nesse sistema interestatal, a contradição implícita no uso de moedas nacionais como referencia internacional, é uma contradição co-constitutiva e inseparável do próprio sistema. A moeda pode até mudar, mas a regra seguirá sendo a mesma, com o Yuan, o Yen, o Euro, ou o Real, dá no mesmo.
4) Por fim, com o desconhecimento ou a negação de que faz parte do poder do emissor da "moeda internacional", transferir os custos de seus ajustes internos para o resto da economia mundial e, em particular para sua periferia monetário-financeira. Cabendo aos seus governantes a escolha de suas respostas soberanas.
Não é fácil de pensar um sistema onde não existe nenhuma possibilidade de equilíbrio estável. Mas um estadista não pode desconhecer que dentro do "sistema interestatal capitalista", jamais haverá equilíbrio econômico estável, ou coordenação política permanente.
(Inst. Humanitas Unisinos)

Portugal

Greve pode revelar um Portugal menos europeu
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Antonio Martins
– 22/11/2010
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No Velho Continente, ataque aos direitos continua: agora a vítima é a Irlanda
Pode ser a maior “greve geral de sempre”, segundo os próprios jornais conservadores. Nesta quarta-feira, 24/11, milhões de trabalhadores portugueses deverão cruzar os braços, atendendo a convocação da Central Geral de Trabalhadores do país, a CGTP. Eles protestam contra um “plano de austeridade” — a resposta do governo (dirigido pelo primeiro-ministro José Socrates, do Partido Socialista) à segunda onda da crise financeira mundial aberta em 2008.
O peso econômico de Portugal é reduzido, mas a importância política da greve, não. Da União Europeia (UE) têm surgido as piores reações contra a crise. Liderados pela primeira-ministra alemã, Angela Merkel, todos os governos do bloco que enfrentam dificuldades financeiras têm procurado reduzir despesas atacando direitos sociais (veja nossa reportagem a respeito). A atitude destoa tanto das políticas adotadas nos países do Sul (China, Índia e Brasil principalmente) quanto da postura híbrida pela qual optaram os Estados Unidos.
Na UE, eleva-se a idade mínima para aposentadorias, congela-se — ou mesmo rebaixa-se salários, elimina-se benefícios sociais. Exceto no caso da própria Alemanha, que se beneficia de uma poderosa máquina exportadora, as medidas não têm produzido resultados sequer em termos macroeconômicos. Mas estão em sintonia com uma regressão social e política mais profunda e preocupante, que inclui o crescimento dos partidos de extrema-direita e a desorientação generalizada da esquerda.
Há resistência — como indicaram as jornadas de mobilização de setembro. Em países como a França, a ampla maioria da opinião pública rejeita as contra-reformas, segundo múltiplas sondagens (e haverá nova jornada de protestos amanhã, 23/11). Porém, como falta um programa alternativo, a luta patina. E vão se multiplicando os planos de “ajuste estrutural” com redução de direitos, como o que a Irlanda comprometeu-se a adotar neste domingo (21/11)
Em Portugal, há sinais de algo novo. Estima-se que greve geral deverá paralisar cerca de metade dos trabalhadores. Além disso, estão surgindo, entre a esquerda institucional (Partido Comunista, Verdes e Bloco de Esquerda ocupam juntos cerca de 20% das cadeiras, no Parlamento), novidades animadoras. Ao invés de simplesmente combater os cortes de direitos, o Bloco de Esquerda, por exemplo, acaba de apresentar uma proposta detalhada de alternativa contra a crise.
Ela reconhece as dificuldades financeiras, mas sugere, para dissipá-las, um conjunto de 15 medidas de sentido oposto ao (mal)-chamado Plano de Estabilização e Crescimento (PEC), que o governo e a UE procuram implementar. Ao invés de privatizar empresas e reduzir direitos como a Renda da Cidadania, a proposta fala, por exemplo, em adotar um Imposto Único sobre o Patrimônio, que incidiria sobre a riqueza superior a 2 milhões de euros. Explora brechas importantes na legislação fiscal: sugere que os bancos deixem de gozar de privilégios e passem a contribuir com a Receita como as demais empresas: com 25% sobre os lucros, ao invés dos atuais 5%. Inclui instrumentos bastante avançados: tributar a “mais-valia urbana”, a valorização obtida pelos proprietários de imóveis graças aos invetimentos de infra-estrutura feitos pelo Estado. Questiona inconsistências fiscais enraizadas (inclusive no Brasil…). Sugere que o Estado deixe de conceder descontos de impostos aos usuários de planos de saúde privados — e destine as rendas suplementares ao financiamento do sistema público.
Disponível na última edição de Esquerda, o jornal produzido pelo Bloco (que também mantém um site rico e sempre atualizado), o programa alternativo abre uma trilha que tem sido pouco explorada pela esquerda europeia. Não se trata nem de formular um projeto revolucionário (algo totalmente fora de lugar, no ambiente europeu atual), nem de buscar o “mal menor” (aceitando, com pequenas modificações, o corte de direitos proposto pela União Europeia). Há espaço para reconhecer a crise (estabelecendo sintonia com os receios da opinião pública) e propor uma saída radicalmente distinta da usual. Provavalmente, a mesma criatividade que permitiu ao Bloco de Esquerda enxergar tal brecha, tornou-lhe possível imaginar formas criativas de mobilização em favor da greve geral, como a que ilustra este post.
Tags: ajustes fiscais, crise do capitalismo, crise financeira, Portugal, União Européia
(Le Monde Diplomatique)

Quintana

Eu fiz um poema

Eu fiz um poema belo
e alto
como um girassol de Van Gogh
como um copo de chope sobre o mármore
de um bar
que um raio de sol atravessa
eu fiz um poema belo como um vitral
claro como um adro...
Agora
não sei que chuva o escorreu
suas palavras estão apagadas
alheias uma à outra como as palavra de um dicionário.
Eu sou como um arqueólogo decifrando as cinzas de uma cidade morta.
O vulto de um velho arquéologo curvado sobre a terra...
Em que estrela, amor, o teu riso estará cantando?

Mario Quintana
(1906-1994)
(Poemblog)

EUA

Estados Desunidos da América?
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Antonio Martins
– 22/11/2010
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Novo censo revela país menos rico e mais polarizado — social e politicamente
Na década de 1990, a fulgurante riqueza dos Estados Unidos contrastava com uma Europa estagnada, uma América Latina incapaz de superar suas crises e uma Ásia emergente, mas ainda muito débil no cenário internacional. Muitas análises viam como inevitável um “novo século americano” — ou seja, a extensão duradoura da hegemonia internacional de Washington.
Quanta coisa mudou, em pouco tempo. Além de enfrentarem claras dificuldades para pautar a agenda global, os EUA são afetados por dores internas crescentes, segundo revelam os primeiros dados do censo populacional de 2010, comentados na edição desta semana da revista Economist. A população está mais pobre, as desigualdades avançam e a polarização social e política tende a dificultar as solução de questões nacionais relevantes.
Segundo os dados preliminares do recenseamento, a renda média das famílias caiu expressivos 7%, entre 2000 e 2009. Além disso, a queda foi desuniforme, afligindo mais intensamente as antigas regiões industriais. No Estado de Michigan, que já foi a meca da indústria automobilística, ela declinou 21,3%; em Indiana, Ohio e Carolina do Norte, entre 13% e 15%. Em cinco Estados a renda média cresceu (Wyoming, Dakota do Norte, Maryland, Louisiana e Alaska). Em quatro deles, o avanço deveu-se ao aumento das cotações de matérias-primas, um fenômeno que pode ser passageiro.
A população ainda é relativamente jovem, se comparada com outras nações ricas, mas está havendo polarização também quanto à faixa etária. Os Estados do Nordeste e do Meio-Oeste — os mais prósperos até há algumas décadas — estão encolhendo populacionalmente, e envelhecendo com rapidez. Um número expressivo de famílias jovens migra rumo ao Oeste, em busca de mais empregos e preços mais baixos (especialmente de imóveis).
O censo revela a força da imigração. O número de residentes nascidos em outros países cresceu 24%, na década. Etnicamente, os hispânicos (aqui incluídos os nascidos nos EUA) já são 21% da população com menos de 25 anos (são apenas 7%, entre os maiores de 65). Em alguns Estados, a população hispânica jovem é quase majoritária. No Arizona, chega a 42%. Mas em muitas partes, a sociedade não tem sido capaz de lidar com tal diversidade: o próprio Arizona adotou, este ano, leis antiimigrantes claramente racistas, que despertaram protestos internacionais e estão sendo questionadas pelo governo central.
Há alguns anos, os sinais de diferenciação entre a sociedade já haviam sido estudados pelo jornalista Bill Bishop. Em uma série de reportagens depois transformadas em livro (The Big Sort, algo como A grande segmentação), ele revelou que, embora vivam num país extremamente diverso, os norte-americanos tendem a formar comunidades cada vez mais homogêneas entre si — porém muito distintas e pouco abertas umas às outras. Resenhas e parte do livro estão disponíveis na internet (em inglês).
Bishop revela que tal segmentação envolve tanto estilos de vida quanto escolhas políticas. Nas eleições presidenciais de 1972, apenas 28% dos norte-americanos viviam em condados onde a diferença de votos entre os candidatos democrata e republicano foi superior a 20 pontos percentuais. Em 2008, 48% dos eleitores já estavam em localidades com tal grau de polarização.
Esta tendência irá se refletir no Congresso recém-eleito, que toma posse em janeiro. Segundo um estudo do cientista política Keith Poole, da Universidade da Califórnia, sua composição será a mais polarizada desde 1865, quando terminou a Guerra de Secessão. Entre os republicanos, é marcante a influência do movimento ultraconservador Tea Party. Na bancada democrata tem peso inédito a ala mais à esquerda.
The Economist lamenta: os EUA estão diante de problemas graves. “Divergências crescentes não vão tornar nada fácil chegar a acordos sobre como resolvê-los”, diz a revista.
(Le Monde Diplomatique)

Che

Che pedagogo
Augusto César Petta *

Fui a Cuba, pela primeira vez, em 1997, juntamente com outros companheiros e companheiras do movimento sindical brasileiro. Naquele momento, os cubanos passavam pelo que denominavam de “período especial”. Além da continuidade do violento bloqueio econômico imposto pelas elites estadunidenses, havia acontecido a queda da experiência socialista na União Soviética. E, claro, como decorrência, o afastamento das relações econômicas da Rússia com Cuba, o que afetava significativamente a qualidade de vida do povo cubano.

Em novembro de 2010, voltei, juntamente com o Secretário-Adjunto de Relações Internacionais da CTB João Batista Lemos, para participar de uma reunião de Centrais Sindicais componentes do Encontro Sindical Nossa América – ESNA e de Centros de Formação Sindical e de Investigação, com o objetivo de definir um programa de formação e investigação na América. Em outro artigo que irei escrever, pretendo transmitir aos leitores, as decisões tomadas na reunião e que se constituem no programa de atividades a serem desenvolvidas.

Nessa viagem, tive contato com um livro denominado “Del pensamiento pedagógico de Ernesto Che Guevara”, escrito pela professora cubana Lidia Turner Martí, doutora em Ciências Pedagógicas, Filosofia e Letras. Acostumado com a observação de que Che foi um grande revolucionário, despojado, capaz de dar sua própria vida para contribuir na luta pela libertação dos povos, não me ocorria que pudesse ter qualidades tais, que permitissem contribuir, de forma significativa, para a pedagogia cubana. Lídia Marti afirma que “o estudo e análise da obra de Che nos leva a afirmar que fez aportes notáveis à pedagogia cubana..... Suas idéias, colocadas em discursos, ensaios, cartas, e até nos diários de campanha, encerram profundas análises da essência do homem, dos métodos para sua formação e da relação estreita entre educação e desenvolvimento econômico e social”. O próprio autor do prólogo do livro, Justo A.C. Rodriguez, confessa que mesmo sendo um leitor entusiasta da obra de Che, não havia reparado na direção pedagógica do seu pensamento.

Para Che é importante que haja uma correspondência entre personalidade individual e pessoa pública, estabelecendo-se uma relação dialética entre o individual e o social. É nessa unidade dialética que se situam as bases para as idéias de Che sobre educação e sobre a formação do homem novo.

Lídia Martí destaca dois elementos que considera fundamentais na obra de Che: a formação de qualidades e valores no homem que constrói uma nova sociedade e a consideração da Pedagogia como uma ciência necessária no processo cubano.

Guevara disse que precisamos formar a juventude, principalmente com as seguintes qualidades: sensibilidade diante dos problemas humanos, amor ao estudo, modéstia, simplicidade, solidariedade, inconformidade diante do mal-feito, intransigência diante da injustiça e do formalismo. Afirma que “neste processo de construção do socialismo podemos ver o homem novo que vai nascendo. Sua imagem não está, todavia, acabada; não poderia estar nunca, já que o processo marcha paralelo ao desenvolvimento das forças econômicas novas...”. Para Che, o coletivismo – que se desenvolve no trabalho grupal - deve ser uma qualidade importantíssima na construção da personalidade do homem socialista. Nesse sentido, ele se opõe ao individualismo que chega a ser exacerbado nas sociedades capitalistas. Nelas, principalmente nas classes dominantes, prevalecem valores opostos aos que Che defende para o novo homem socialista.

Com a prevalência dos valores socialistas, Che sintetiza sua preocupação pedagógica: “A sociedade em seu conjunto deve converter-se numa grande escola”.

Nessa segunda viagem a Cuba, 13 anos depois da primeira, pude verificar que os valores para um novo tipo de ser humano - solidário e inconformado diante das injustiças - continuam sendo construídos pelo povo cubano.


* Professor, sociólogo, Coordenador Técnico do Centro de Estudos Sindicais (CES), membro da Comissão Sindical Nacional do PCdoB, ex- Presidente do SINPRO-Campinas e região, ex-Presidente da CONTEE.
(vermelho.org)