Democracia:

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"Ensina-me SENHOR a ver as minhas próprias faltas e apaga-me a vocação de descobrir as faltas alheias." Emanuel

domingo, 27 de dezembro de 2009

Monicelli

Roma: Mario Monicelli
na fábrica ocupada
.
Por Osvaldo Coggiola, de Roma




O autor, Coggiola, e
o diretor Mario Monicelli

Ombro a ombro com os trabalhadores em luta por seus direitos, lá estava ele, o grande diretor de cinema Mario Monicelli, hoje com 95 anos.

Na periferia industrial de Roma, na Tiburtina, a fábrica Eutelia, uma das mais importantes da área de informática da Itália, foi fechada pelos seus donos, demitindo 1200 trabalhadores. Faz mais de um mês, a fábrica foi ocupada pelos operários e posta para produzir. A 10 de novembro, os trabalhadores repeliram um ataque de bandas parapoliciais (“vigilantes”). A 25 de novembro, um ato-festival foi realizado na fábrica, com oradores e grupos musicais, para receber solidariedade e divulgar a luta. Lá fui eu, levar meu apoio e saber o que rolava.

O ato era bastante pequeno, pouco numeroso. Os oradores sindicais (FIOM-CGIL) apelavam para a sensibilidade das autoridades, fustigavam os donos pela sua “má gestão da empresa”, criticavam a mídia. Até que um orador, bem mais velho, tomou a palavra e, falando com energia, responsabilizou o capitalismo, e chamou à unidade dos ocupantes da Eutelia com os outros trabalhadores da Itália que lutam pelos mesmos motivos, em especial os sardos e venetos da Alcoa (que dias depois enfrentaram a polícia, em manifestação nas ruas de Roma).


Quem era ele? Ninguém menos que Mario Monicelli, o diretor e roteirista de L' Armata Brancaleone, I Compagni, I Soliti Ignoti, Brancaleone nelle Crociate, Romanzo Popolare, Amici Miei, Parenti Serpenti, e tantos outros filmes, que já não são só parte dos clássicos do cinema italiano, mas da própria cultura universal (viraram até expressões usadas na linguagem corrente). O único regista italiano que conseguiu reunir, num só filme, Albertone Sordi e Totò, os dois maiores comediantes do cinema italiano em todos os tempos.

Lá estava ele, com seus 95 anos (sim, noventa e cinco), falando com a energia de um garoto, chamando à unidade dos trabalhadores, sublinhando e encorajando o papel das mulheres na luta de classes, ele que o filmou como ninguém no fantástico I Compagni, de 1961 (Mario Monicelli, Marcello Mastroianni, Renato Salvatori, Annie Girardot: muito tempo passará até outro filme reunir quatro gênios como esses...), quando os movimentos feministas, na Europa e no mundo, apenas engatinhavam.

Fui falar com ele, ele sentado no meio dos operários, o vencedor dos Festivais de Veneza e Berlim, bebendo seu cafezinho. A conversa não foi fácil, ele está começando a ter problemas auditivos (embora se negue a usar aparelho de ouvido), mas foi o suficiente para me dizer que continua “mais comunista do que nunca”. E falava com qualquer um que quisesse falar com ele, eu inclusive.

Pensei: não sou da geração da Internet e do celular, do hi-phone e do skype, do sei lá mais o quê (não consigo nem acompanhar), das viagens fáceis para qualquer lugar, e não me considero sortudo por isso (bem ao contrário); mas sou da geração à qual Monicelli (e os poucos que estavam à sua altura) ensinou, depois de passar pelo fascismo e pela guerra, coisas que, hoje, nos fazem sorrir quando vemos (ou lemos, ou assistimos) “desconstruções” dos “ocidentalismos” (e dos “orientalismos” ad hoc), defesas dos “multiculturalismos”, ou “re-inclusões” dos “excluídos da história” - num festival de populismos intelectuais paternalistas de terceira categoria, que passam por “novidade”. Sem falar em algumas “criacionices” cinematográficas, hollywoodianas ou não, que, perto dos filmes de Monicelli parecem obras de estudantes desorientados de cinema do primeiro ano da ECA-USP...

Monicelli nos fez viver o sublime e o ridículo dos desempregados/ladrões amadores do capitalismo hodierno (em I Soliti Ignoti), nos mostrou como os “excluídos” se “incluíam” sozinhos (em I Compagni) e se fusionavam, no partido operário, com a intelectualidade revolucionária... e também ingênua (Mastroianni!), justamente porque revolucionária. E os dois “Brancaleone” são muito mais que “comédias italianas”: décadas antes que isso virasse “moda”, Monicelli explodiu, a tiros de gargalhada, todos os euro/cristiano-centrismos – Monicelli/Gassman, encontros como esse só acontecem dois ou três por século (outro gênio do século XX, este lamentavelmente morto - prematuramente -, Bernard-Marie Koltès, acabou com todo o racismo anti-árabe que grassa na Europa, com uma só frase: “Se na França não houvesse árabes, ela seria igual à Suíça”).

Monicelli, o único intelectual italiano na ocupação da fábrica, com seus 95 anos, um dos maiores diretores de cinema do século XX, e também do século XXI (quem duvidar, que assista Lettere della Palestina, de 2002, ou Le Rose del Deserto, de 2007), um jovem quase centenário, porque artista e comunista.

Vão aí algumas fotos da ocupação da Eutélia, da luta contra a polícia dos operários da Alcoa, e uma de Monicelli comigo no ato-festival, lamentavelmente pouco clara, porque tirada com um celular chinês (mas não comunista).

Ciao, grande Mario, nos vemos na próxima ocupação de fábrica, para falarmos de internacionalismo e comunismo. Monicelli ficou até o final do ato, depois o acompanhamos até o ponto onde tomou, sozinho, o táxi que o levou à casa; eu fui andando até meu ponto de ônibus que, afinal, sou um adolescente.

20/12/2009

Fonte: ViaPolítica/Tlaxcala/O autor

URL deste artigo em Tlaxcala:
http://www.tlaxcala.es/...

Mais sobre o autor:
Osvaldo Coggiola é um intelectual trotskista argentino. Possui graduação em História pela Universidade de Paris VIII (1977), graduação em Economia pela Universidade de Paris VIII (1979), especialização em História pela Universidade de Paris VIII (1979), mestrado em História pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais/França (1980) , doutorado em História Comparada das Sociedades Contemporâneas pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais/França (1983) e pós-doutorado pela Universidade de São Paulo (1998) . Atualmente, é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e professor nos cursos de jornalismo e economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Coggiola tem experiência na área de História, com ênfase em História Moderna e Contemporânea, atuando principalmente em temas como Comunismo, União Soviética e Economia Marxista. (wikipedia)

Tlaxcala é a rede internacional de tradutores pela diversidade linguística. Este artigo pode ser reproduzido livremente na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como a menção ao autor e à fonte.

Artigo original de 5/12/2009

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Sexo

Esquizo versus trans?
Não escolhemos um projeto, não precisamos. Podemos jogar na coluna do meio: a de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para quem queira fugir dos fascismos do momento
Fabiane Borges, Hilan Bensusan
(10/04/2008)
Vesículas, assembléias, clavículas, autoridades, cutículas, ancas, palanques, clitóris, lucidez. Essa justaposição desorienta. Parece que a política fica umbigocêntrica, que o corpo fica ralo de materialidade. Será que são as amareladas idéias de que corpos são pré-políticos que nos deixam com essa impressão? De todo modo, políticas esquizotrans não são políticas de corpos prontos – nem de políticas prontas. Nossos corpos e nossas políticas são feitas de justaposições; e de interdições de justaposições. A biopolítica da intersexualidade – que corpos com genitália que não é claramente masculina ou feminina podem continuar vivos sem órgãos definidos –, por exemplo, não é apenas a disputa pela inteligibilidade dos corpos; é também a batalha pela autonomia de justapor. Encontrar política no corpo é pensá-lo como um sintoma dos desejos (das partículas de subjetividade), como uma vitrine dos produtos dos dispositivos de fazer certos tipos de gente (fazendo coisas como matrizes de inteligibilidade), como um terreno em disputa da evolução natural e artificial das espécies (que deixa pistas pelo genoma). Justapor corpo e política é contaminar o corpo de política – ele vira um palanque – e embrenhar a política das potências (e dos limites de velocidade) dos corpos. O corpo disciplinado, o corpo doente, o corpo mutilado, o corpo em êxtase são palanques porque são plataformas a partir das quais os desejos fazem campanha (não fazem campanha eleitoral, fazem campanha infecciosa). Também assim o corpo sexuado, inserido em uma bipolaridade, embrenhado das normas de gênero ou constituído pelas artimanhas inatas e adquiridas da diferença sexual.
— Doutor, quantas vezes uma pessoa pode mudar de sexo?
— Olhe, eu não sou a pessoa mais adequada para responder a sua pergunta, porque há mais de 22 anos eu venho me recusando a participar de qualquer procedimento de normalização sexual de recém-nascidos. Eu simplesmente deixo a genitália como ela nasceu. Outro dia encontrei uma menina de 15 anos com sua mãe na praia. A mãe me reconheceu: eu era o chefe da equipe no hospital em que ela fez o parto. Eu olhei para a menina, que vestia um bikini azul, e não pude parar de pensar no que havia dentro da parte debaixo daquele biquíni.
— O que havia?
— Tudo.
Judith Butler [1], em um livro que marcou uma época há 18 anos, exalou uma certa fragrância de política pós-corporal. Nas entrelinhas de Butler de Gender Troubles (1990), ela apresentava a inteligibilidade dos corpos em termos de sua capacidade para alguma performance e, assim, podia ser que os corpos tivessem deixado de importar. Ou seja, podia ser que o gênero, com todo o seu ímpeto normativo, tornasse irrelevante os contornos (materiais, demasiado materiais) dos corpos. Butler recentemente confessou que sempre que tenta falar do corpo, acaba tratando da linguagem (Undoing Gender, 2004, p. 198). Ela torce o foco da materialidade do sexo para a sexualidade da matéria, Há manivelas o suficiente em sua engrenagem para mover esse guindaste. Porém fica a fragrância: não seriam estes corpos irreverentemente descolados dos órgãos genitais – irrelevantes? Pensemos agora no esquizo: fugido da organicidade do corpo, solto dos órgãos, preso apenas a um corpo sem inteligibilidade. E eis o contraste.
— Para que você quer fazer uma operação de mudança de sexo? O sexo não importa mais, seja um sujeito lesbiano (ou invente sua performance sexual a cada dia, ou trate seu corpo como se ele não tivesse órgãos).
— Ah?
Consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória
Trans versus esquizo. A política sexual dos cyborgs da diferença sexual de um lado e a política sexual dos corpos múltiplos, rarefeitos, quase epifenomênicos. Em Em busca do que é trans, falamos dos problemas em tratar com um doutor Grinder que recusa a colocar seu bisturi a serviço de uma trans-inter. Ele talvez estivesse a serviço da ordem estabelecida de gênero. Mas a paciente: ela trans, ela esquizo. Para ser nada, às vezes precisamos ser tudo – era uma de suas maneiras de criar para si um corpo sem órgãos: criar para si um corpo com órgãos demais. Porém, nossa personagem não é apenas uma ficção trans de uma esquizo ou uma divagação esquizo acerca do desejo trans?
Parece uma tensão familiar: o projeto político dos corpos sem sexo (a matéria liquidificada em política) e o desejo de ter um corpo com outro sexo. [2] Nos movemos por essa tensão muito freqüentemente, e aqui as nuances dão o tom das escolhas. E consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória. Ninguém nasce mulher (ou homem), torna-se, mas em um percurso assim atravessa-se o inaudito do fascismo: o trânsito, os subterrâneos da ordem. Andréa Stefani, colunista da Tribuna do Brasil, por exemplo, conta que o mero exercício de um cross-dressing eventual, já faz atravessar pelo menos a epiderme de alguns mecanismos dos desejos. Ocupando o espaço que as transsexuais percorrem (ou inspiradas pelas horas em que Flávio de Carvalho caminhou pelas ruas de São Paulo de saia e meia-calça) surgem pessoas transgênero, trans, travestidas, espécies de Orlans da genitália que querem transitar, fazer um ninho no meio do trânsito, querendo tudo ou quase tudo.
— Ah? É isso que eu quero. Teu projeto político vai determinar o que eu posso e o que eu não posso querer? Graças a mim outras pessoas podem querer levar isso mais a fundo e desmaterializar-se exatamente na velocidade da minha trans–formação? Experimentar algumas mudanças de função dos órgãos? Experimentar ter um pinto e uma cona cunhado no coração? Eu, por enquanto, quero apenas transitar: atravessar a rua e ficar do outro lado.
A tensão esquizo X trans também é reminiscente do contraste entre dois tipos de projetos feministas já clássicos e que ainda marcam as interações em torno da querela da diferença sexual. O esforço para desencavar uma escritura feminina era um esforço por pensar de uma maneira própria das mulheres. A tradição em torno da écriture féminine tenta afirmar a diferença sexual: é preciso que a mulher deixe ser tomada como a outra do homem, ela é antes aquilo para o que não há espaço em um regime falocêntrico. Luce Irigaray [3] propôs uma heterossexualidade radical; onde o hetero é radical, a diferença sexual não é pensada desde nenhum dos lados, mas como uma diferença. A diferença sexual não é uma oposição sexual, mas uma alteridade – o projeto político de encontrar as mulheres sob os escombros do papel de outras dos homens. Uma vez afirmada a diferença sexual – não composta de pares opostos, mas ainda de pares – uma pessoa pode ir de um pólo a outro, talvez mesmo ficar no meio entre esses pólos. Os pólos não são nem um sucursal do outro e nem um satélite na órbita de outro: apenas diferença sem hierarquia.
Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais de binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão:
O contraste é com um projeto como aquele que foi proposto por Monique Wittig (que, para nossos propósitos está próximo do projeto de Butler). Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais uma erótica da binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão: ao invés de cuidar dos órgãos, pense seu corpo como independente deles. Seja lésbica com a trosoba, faça ela entrar em um devir antifálico, em um processo de clitorização.
Não escolhemos um projeto, não temos que escolher. Podemos jogar na coluna do meio: a coluna do meio é a coluna de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para que quem queira possa fugir dos fascismos do momento. Todas as partes de qualquer todo tem algum direito de escapar. Políticas esquizotrans são políticas das exceções.
A menina do biquíni azul nasceu com tudo, a operação não aconteceu porque a médica se encantou com o pênis por vir, que segurou com suas mãos e, vendo naquelas carnes minúsculas uma pica grossa como a do enfermeiro que trabalhava ao lado e dormia com ela no meio da semana, decidiu deixar a menina como estava. Nada, ninguém iria colocar em questão a sua reputação — deixa a pica lá, chamemos a menina uma menina. E ela cresceu, o biquíni azul flutuando com suas costas no rio que leva ao mar. Quando uma onda faz a parte de baixo do biquíni descer um pouco de seu caimento, ela é acometida de vários raios do céu no cu e eles diziam que sua perna direita transformara-se num mensageiro desengonçado cuja missão era cortar o mundo com voz afiada; o começo da política é o corpo. Se o corpo não puder ser discutido não haverá crescimento que não seja por cima das exceções, elas continuaram como saci do mato rodopiando o imaginário de uma política sem imaginação no senado. Que tipo de crescimento econômico me garantem os homenzinhos engravatados nos seus falismos de fala e de façanhas ministeriais? Com seu mundo não compactuamos com sede, ele não é devidamente esquizotrans. Esquizotrans é a categoria de quem transita – de quem quer outra coisa.
A menina de biquíni de bolinha se chamava Alex e mijava de pé segurando o próprio pinto. O diálogo mais bonito do filme XXY foi conversa entre a hermafrodita e o menino que acabara de ser enfiado pela hermafrodita. Ele pergunta: qual dos dois você é? Ela: os dois. Ele: isso não pode ser. Ela: é você que me diz o que posso ser. Silêncio. Ele: você gosta de homens ou de mulheres. Ela responde: eu não sei, e você (sic) ? É que os desejos são emaranhados no que colocamos para jogo. A esquizerda não prende a respiração diante do abjeto, ela respira e por isso inspira e logo conspira. Coube aos fascismos a erotização de mão única dos discursos políticos — o falocentrismo virou logocentrismo e a exceção sem cabimento. A esquizerda veio para politizar as eróticas, as mais miudinhas e as mais escandalosas.

Israel

Israel prende coordenador da campanha "Stop the Wall"
Jamal Juma foi preso por soldados israelenses, dia 16 de dezembro, em sua casa. Os soldados disseram a esposa de Juma que ela só voltaria a ver o marido quando houvesse uma troca de prisioneiros. Desde então, ele permanece preso e proibido de falar com um advogado ou com a família, sem nenhuma explicação oficial para a sua prisão, denuncia a Stop the Wall. Jamal, de 47 anos, dedica a vida à defesa dos direitos dos palestinos. Ele esteve este ano no Brasil, participando do Fórum Social Mundial, em Belém (Foto de Eduardo Seidl).
Redação
O governo de Israel prendeu, dia 16 de dezembro, Jamal Juma, coordenador da Campanha Stop the Wall, que luta pela derrubada do muro construído no meio do território palestino. Segundo informações do site da campanha, militares israelenses convocaram Juma para um interrogatório à meia-noite do dia 15 de dezembro. Horas depois, levaram-no de volta para sua casa. Juma foi mantido algemado, sob os olhos da esposa dos três filhos pequenos, enquanto soldados revistaram sua casa durante duas horas. Na saída, os soldados disseram a esposa de Juma que ela só voltaria a ver o marido quando houvesse uma troca de prisioneiros. Desde então, Juma permanece preso e proibido de falar com um advogado ou com a família, sem nenhuma explicação oficial para a sua prisão, denuncia a Stop the Wall.

Jamal, de 47 anos, nasceu em Jerusalém e dedicou a sua vida à defesa dos direitos humanos dos palestinos. Ele esteve este ano no Brasil, participando do Fórum Social Mundial, em Belém. Na ocasião, defendeu o boicote econômico a Israel como uma das armas prioritárias para defender os direitos do povo palestino. O foco principal do trabalho de Jamal é a capacitação das comunidades locais para defenderem os seus direitos em face de violações provocadas pela ocupação israelense. Ele é membro fundador de várias ONGs palestinas e redes da sociedade civil. Também é coordenador da Palestina Grassroots Anti-Apartheid Wall Campaign desde 2002. É muito respeitado pelo seu trabalho e foi convidado para numerosas conferências de entidades e da ONU.

Ainda segundo a Stop the Waal, Jamal Juma é o preso de mais alto escalão no quadro de uma campanha de intensificação da repressão da mobilização popular contra o muro e os colônias israelenses em território palestino. “No início, foram presos ativistas locais das aldeias afetadas pelo muro. Agora, estão sendo presos defensores dos direitos humanos internacionalmente conhecidos, como Mohammad Othman e Abu Abdallah Rahmeh. Mohammad, um outro membro da campanha Stop the Wall, foi preso há quase três meses, no regresso de uma palestras na Noruega. Após dois meses de interrogatório, as autoridades israelenses não conseguiram encontrar provas para acusa-lo e, por isso, emitiram uma ordem de detenção administrativa. Abdallah Abu Rahma, uma figura importante na luta não violenta contra o muro em Bil’in, foi levado de sua casa por soldados encapuzados no meio da noite, uma semana antes de Jamal ter sido preso, denuncia ainda a organização.

Na avaliação dos ativistas companheiros de Jamal, com estas detenções, Israel pretende quebrar a sociedade civil palestina e sua influência na tomada de decisões políticas em nível nacional e internacional. Eles fazem uma convocação:

“Este processo claramente criminaliza o trabalho dos defensores dos direitos humanos palestinos e a desobediência civil palestina. É crucial que a sociedade civil internacional se oponha às tentativas israelenses de criminalizar defensores de direitos humanos que lutam contra o muro. A política de Israel de atacar os organizadores que apelam à responsabilização de Israel é um desafio direto às decisões dos governos e organismos mundiais como o Tribunal Internacional de Justiça para responsabilizar Israel pelas violações do direito internacional. Este desafio não deve ficar sem resposta”.


Fotos: Eduardo Seidl

Holocausto

A ferida não cicatriza
O maior conflito da História, deflagrado há 70 anos, foi também o mais vergonhoso. O extermínio de 6 milhões de judeus ultrapassou fronts, adentrou casas, escolas, hospitais e alcançou um nível de barbárie inimaginável
Por: Miriam Sanger
Publicado em 04/12/2009

"Fugi em 1941 com dois de meus irmãos, quando tinha 14 anos. Não teríamos outra chance de sobreviver." (Foto: Regina de Grammont)
O saldo do holocausto na Segunda Guerra Mundial ainda é ferida aberta para o povo judeu: 6 milhões de civis, entre eles 1,5 milhão de crianças, foram exterminados durante o conflito (1939-1945). Nunca antes nem depois ocorreu na História um evento de perseguição racial de tal magnitude, exercido abertamente por um governo. Desde 1942 o mundo tinha comprovado conhecimento das chacinas e assassinatos em massa. Nada foi feito. Elie Wiesel, romeno sobrevivente do nazismo, escritor e Prêmio Nobel da Paz, recebeu em 1979, do então presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, fotos aéreas de campos de extermínio feitas por aviões americanos entre abril e dezembro de 1944. Durante esses voos, nem uma única ferrovia foi bombardeada, talvez uma prova de que não exista nada no mundo absolutamente bom ou ruim. Nem a “força aliada”.
A questão salta aos olhos no mais recente e provavelmente o mais polêmico filme sobre o assunto, a fábula Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino. O cineasta americano cria um grupo de judeus da resistência encarregado de espalhar o terror entre os nazistas. O comandante Aldo Raine (Brad Pitt) exige de seus comandados cem escalpos de nazistas – “homenagem” aos troféus de guerra de indígenas norte-americanos.
Tarantino não é judeu, mas expressou desejos coletivos nunca realizados e até lançou uma teoria, logo no início do filme, sobre o ódio a esse povo, sentimento sem motivações concretas. A fantasia rola solta e o público, nervosamente, ri. Bastardos Inglórios é mais um sinal de que o assunto está longe de ser enterrado – talvez uma das armas contra a repetição da história.
Afinal, embora nem isso explique o holocausto, Adolf Hitler foi eleito democraticamente. À época de sua nomeação como chanceler, em 1933, a Alemanha ainda pagava o alto preço da derrota na Primeira Guerra, e ele surge como salvador da pátria. Um pretenso herói que nunca escondeu ideais racistas, expressos em seu livro Mein Kampf (Minha Luta, 1924). Em 1934, com a morte do então presidente, Paul von Hildenburg, Hitler conquistou poder absoluto de chefe do partido nazista (Führer), chefe de Estado e chefe de governo. Comunistas, socialdemocratas e sindicalistas foram os primeiros perseguidos e presos. Em seguida, foi a vez dos “associais”, como ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová, protestantes e doentes mentais. Os judeus, então considerados párias da sociedade alemã, foram privados de direitos fundamentais e segregados.
Em 9 de novembro de 1938, Hitler promoveu seu primeiro show de horror: a Kristallnacht, ou Noite dos Cristais, ação de vandalismo da polícia nazista, a Gestapo, e outras milícias. Diferentes fontes registram a destruição de cerca de mil sinagogas, 7.500 estabelecimentos judaicos, cerca de 100 judeus assassinados e 30 mil presos enviados para campos de concentração. Os vidros e vitrais estilhaçados deram nome ao evento. A partir daí, os judeus passaram a ser indiscriminadamente presos, segregados, fuzilados e enterrados em valas comuns por um único motivo: seguir a fé judaica. A ferida não cicatriza. E os últimos representantes da geração que testemunhou aquela tragédia perdem terreno, agora, para a natural passagem dos anos.
“Com a Noite dos Cristais, Hitler testou qual seria a reação do mundo a uma ação brutal direta e organizada contra os judeus alemães. Frente ao silêncio, percebeu que poderia prosseguir”, afirma Ben Abraham, judeu polonês desembarcado no Brasil em 1951. Ele chegou ao fim da guerra com 28 quilos e ficou sete meses internado. Havia passado os primeiros anos no gueto de Lodz e depois em diversos outros campos, incluindo Auschwitz. Teve “sorte”: de sua cidade natal, salvaram-se 1.500 judeus, de uma população de 230 mil.
Um dos vice-presidentes mundiais da Associação dos Sobreviventes do Nazismo e presidente da Associação Brasileira Beneficente dos Israelitas Sobreviventes da Perseguição Nazista, Abraham é parte de uma minoria de sobreviventes empenhada em lembrar o Holocausto, em livros e palestras. “Noventa por cento dos que passaram por campos de concentração tentaram esquecer. Quando se perde a condição humana, em que uma batata podre boiando em um esgoto é levada imediatamente à boca, é tarefa cruel manter a memória acesa”, diz. E as novas gerações, aparentemente, não resistem a tentar compreender uma história que parece surreal: “Antes de cada início, os diretores me alertam para o comportamento difícil dos alunos. Mas, enquanto falo, o silêncio é absoluto”.
Inimigos de Estado
Em Bastardos Inglórios há para os mais atentos respostas a duas septuagenárias perguntas. A primeira: por que os judeus não fugiram da Alemanha antes da guerra? Aqui, é preciso lembrar que as mudanças foram ocorrendo lentamente. Em abril de 1933 foram decretadas as Leis Arianas, dando início à segregação social e política dos judeus – com prisões sem processos, boicote econômico, congelamento de contas bancárias, proibição de ocupar cargos públicos. Mas a vida ainda parecia possível. Em 1935, as Leis de Nuremberg, ou Lei para a Proteção do Sangue e da Honra Alemães, traziam seus decretos antissemitas. Naquele momento, os países já tinham definido cotas de emigração que se reduziam à medida que a situação se tornava mais crítica na Alemanha.
Também foi progressiva a forma com que os nazistas criaram métodos de confinamento para seus “inimigos de Estado”. Os guetos eram áreas reservadas dentro das cidades; os campos de concentração eram como grandes presídios; e os campos de extermínio, dotados de câmaras de gás e crematórios coletivos, eram para onde, a partir de 1942, iam os condenados. Houve mais de 20 mil campos de concentração pela Europa e seis de extermínio: Auschwitz-Birkenau, onde cerca de 1,6 milhão de pessoas foram assassinadas; Belzec, 736 mil; Chelmno, 890 mil; Maydanek, entre 700 mil e 900 mil; Sobibor, 780 mil; Treblinka, 1,2 milhão.
A segunda pergunta é: por que não houve resistência frente às agressões, cada vez mais brutais? A resposta é: houve. O caso mais famoso aconteceu no Gueto de Varsóvia, na Polônia, numa área de 4 quilômetros quadrados com 400 mil judeus confinados. Em abril de 1943, após a deportação de 300 mil para Treblinka, um grupo de 750 combatentes se rebelou. A batalha durou menos de um mês e é vista no filme O Pianista, de Roman Polanski. Em Treblinka e em Sobibor, os prisioneiros atacaram os guardas e foram fuzilados. No ano seguinte, 250 morreram em uma revolta em Auschwitz, outros 200 foram fuzilados depois. Houve outros levantes – não era o tipo de informação que interessava aos alemães registrar. E havia os grupos de partisani, um capítulo à parte.
Única chance
A definição clássica de partisan é “membro de uma tropa irregular formada para se opor à ocupação estrangeira de determinada área”. Na Segunda Guerra, formaram-se vários grupos que atuavam com técnicas de guerrilha, acampados em florestas, composto por refugiados que pudessem lutar e, quando possível, dar condições de vida para idosos, mulheres e crianças que conseguiam escapar de cidades invadidas pelo Exército nazista. Moisés Szutan, lituano que vive no Brasil desde 1947, foi partisan do primeiro grupo de resistência criado por prisioneiros de um gueto, o de Vilna. “Fugi em 1941 com dois de meus irmãos, quando tinha 14 anos. Não teríamos outra chance de sobreviver.” Seus pais e dois irmãos menores foram assassinados no gueto, assim como a quase totalidade dos 20 mil habitantes. Apenas algumas centenas sobreviveram.
O grupo de Szutan era coordenado e mantido pelos russos, povo que perdeu na guerra 20 milhões de vidas. Recebia armas e remédios lançados de paraquedas. A comida era levada de fazendas e casas da região, em assaltos coordenados. A missão do grupo era “atacar pelas bordas”: dinamitava pontes, destruía linhas férreas, armava emboscadas. Em uma ação, Szutan e sete homens se confrontaram com os alemães. Três morreram. Uma ponte foi destruída. Ele traz na perna a marca de um ferimento a bala. “No começo foi muito difícil. Depois conseguimos nos organizar. Era nossa única possibilidade de sobrevivência. Os invernos eram longos, a comida tinha de ser enterrada para não estragar”, conta. Apenas nas florestas da Lituânia estima-se que atuaram cerca de 17 mil partisani.
Miriam Brik Nekrycz, mulher de Ben Abraham, teve uma experiência com florestas, na Polônia. Ela foi a única criança judia de Luck a sobreviver aos massacres. Com a invasão alemã à sua cidade, iniciou uma maratona por vilarejos vizinhos. Quando a situação ficou insustentável, inclusive por conta da perseguição e delação de poloneses não judeus, ela, sua mãe, a tia, primos e irmãos refugiaram-se na floresta. Conseguiram sobreviver por um período à base de esmolas. Um dia uma polonesa cristã, cujo marido havia sido convocado pelo Exército russo, chamou-a para prestar serviços domésticos em troca de casa e comida. Miriam levava diariamente restos de refeições para sua família. Até um dia em que, ao se aproximar, ouviu tiros. Quando o barulho cessou, encontrou a família morta. Por ter tias no Brasil, veio em 1951. Há alguns anos fez uma viagem martirizante pela Europa. “Não há ninguém em Luck a quem consultar sobre minha família: mais de 25 mil judeus foram fuzilados e enterrados em uma vala comum.”
Esse era um expediente convencional, até que fosse arquitetada a Solução Final, o eufemismo macabro para o plano definido em 1942 pelo governo nazista para eliminar por completo a população judaica. Os campos de extermínio começaram a receber hordas de prisioneiros a partir daquele ano. Os de concentração existiam desde 1933. Há o registro da chegada dos americanos a Dachau, o primeiro deles. Encontraram cerca de 32 mil prisioneiros amontoados em 20 barracas, cada uma com capacidade para 250 pessoas. Também encontraram quase 40 vagões de trem, cada um com cem ou mais corpos. Tudo está documentado em imagens fotográficas e depoimentos de sobreviventes ou dos poucos carrascos presos e julgados após a guerra.
Diz o Talmud, um dos livros sagrados dos judeus, que “quem salva uma vida é como se salvasse toda a humanidade”. A frase se aplica a diversos heróis que atuaram silenciosamente na guerra. A brasileira Aracy de Carvalho Guimarães Rosa ganhou o apelido de Anjo de Hamburgo por salvar centenas de judeus, ignorando leis antissemitas e concedendo vistos que abriam caminho para refúgio no Brasil. Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordeaux, salvou mais de 30 mil pessoas com expediente similar. Mais famoso que ambos foi o feito do empresário alemão Oskar Schindler, retratado em A Lista de Schindler por Steven Spielberg.
Em outros locais, populações se mobilizaram. A de Le Chambon-sur-Lignon, na França, deu abrigo a centenas de crianças. Em outras cidades europeias o mesmo foi feito: e essa é a história do belga André Daniel Reisler. Aos 9 anos, com documentos falsos, ele passou a viver com uma família que colaborava com a resistência em Charneux, na Bélgica. “Frequentei a escola e vivi como cristão. Ia à missa todo domingo, mas o padre conhecia minhas origens.” Ele vivia com o medo diário de entregar a identidade judaica com alguma atitude ou comentário suspeito. Em dezembro de 1944, Reisler voltou a viver com a mãe, que trabalhou por anos com falsa identidade na casa de uma família rica. O pai, depois de preso na Suíça, conseguiu juntar-se a eles mais tarde. Voltou à Bélgica de bicicleta. Reisler vive no Brasil desde 1951.
Quando a guerra acabou, 27 milhões de soldados e 25 milhões de civis estavam mortos. Para Ben Abraham, só estaremos livres de uma nova tragédia dessas proporções quando tivermos discernimento para não permitir a ascensão de líderes como Hitler: “Não acredito que algo assim possa acontecer nas próximas décadas. Mas quem pode prever daqui a 100 anos? Nossa melhor arma é a consciência política, saber escolher bem aqueles que colocamos no poder”.

Natal

Por que não festejo e me faz mal o Natal
Dezembro 24, 2009
por Mário Maestri*
Não festejo e me faz mal o Natal por diversas razões, algumas fracas, outras mais fortes. Primeiro, sou ateu praticante e, sobretudo, adulto. Portanto, não participo da solução fácil e infantil de responsabilizar entidade superior, o tal de “pai eterno”, pelos desastres espirituais e materiais de cuja produção e, sobretudo, necessária reparação, nós mesmos, humanos, somos responsáveis.
Sobretudo como historiador, não vejo como celebrar o natalício de personagem sobre o qual quase não temos informação positiva e não sabemos nada sobre a data, local e condições de nascimento. Personagem que, confesso, não me é simpático, mesmo na narrativa mítico-religiosa, pois amarelou na hora de liderar seu povo, mandando-o pagar o exigido pelo invasor romano: “Dai a deus o que é de deus, dai a César, o que é de César”!
O Natal me faz mal por constituir promoção mercadológica escandalosa que invade crescentemente o mundo exigindo que, sob a pena da imediata sanção moral e afetiva, a população, seja qual for o credo, caso o tenha, presenteie familiares, amigos, superiores e subalternos, para o gáudio do comércio e tristeza de suas finanças, numa redução miserável do valor do sentimento ao custo do presente.
Não festejo e me desgosta o Natal por ser momento de ritual mecânico de hipócrita fraternidade que, em vez de fortalecer a solidariedade agonizante em cada um de nós, reforça a pretensão da redenção e do poder do indivíduo, maldição mitológica do liberalismo, simbolizada na excelência do aniversariante, exclusivo e único demiurgo dos males sociais e espirituais da humanidade.
Desgosta-me o caráter anti-social e exclusivista de celebração que reúne egoísta apenas os membros da família restrita, mesmo os que não se freqüentaram e se suportaram durante o ano vencido, e não o farão, no ano vindouro. Festa que acolhe somente os estrangeiros incorporados por vínculos matrimoniais ao grupo familiar excelente, expulsos da cerimônia apenas ousam romper aqueles liames.
Horroriza-me o sentimento de falsa e melosa fraternidade geral, com que nos intoxica com impudícia crescente a grande mídia, ano após ano, quando a celebração aproxima-se, no contexto da contraditória santificação social do egoísmo e do individualismo, ao igual dos armistícios natalinos das grandes guerras que reforçavam, e ainda reforçam – vide o peru de Bush, no Iraque – o consenso sobre a bondade dos valores que justificavam o massacre de cada dia, interrompendo-o por uma noite apenas.
Não festejo o Natal porque, desde criança, como creio para muitíssimos de nós, a festa, não sei muito bem por que, constituía um momento de tensão e angústia, talvez por prometer sentimentos de paz e fraternidade há muito perdidos, substituindo-os pela comilança indigesta e a abertura sôfrega de presentes, ciumentamente cotejados com os cantos dos olhos aos dos outros presenteados.
Por tudo isso, celebro, sim, o Primeiro do Ano, festa plebéia, hedonista, aberta a todos, sem discursos melosos, celebrada na praça e na rua, no virar da noite, ao pipocar dos fogos lançados contra os céus. Celebro o Primeiro do Ano, tradição pagã, sem religião e cor, quando os extrovertidos abraçam os mais próximos e os introvertidos levantam tímidos a taça aos estranhos, despedindo-se com esperança de um ano mais ou menos pesado, mais ou menos frutífero, mais ou menos sofrido, na certeza renovada de que, enquanto houver vida e luta, haverá esperança.
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* Historiador e professor do curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS. Publicado em La Insignia.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

FSM

Dez anos para consolidar o "outro mundo possível"
Por Karol Assunção/Adital [Quarta-Feira, 23 de Dezembro de 2009 às 13:50hs]

Em 2001, cerca de 20 mil pessoas se reuniam em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, Brasil, na construção de "um outro mundo". Surgia ali o Fórum Social Mundial (FSM), que tinha como objetivo desfazer a dominação das regras econômica impostas pelos países mais ricos no Fórum Econômico Mundial de Davos (Suíça).

Com o passar dos anos, o FSM se firmou e conquistou espaço nacional e internacionalmente, com participação crescente de pessoas e multiplicação de Fóruns Regionais, Nacionais e Locais em diversas partes do mundo. Em 2009, nove anos após a primeira edição do FSM, Belém, no Pará (Brasil), recebeu 150.000 participantes. Um levante de gente unida no propósito e pensamento de que um mundo melhor e mais justo é mesmo cada vez mais urgente.

Em 2010, o FSM completa dez anos de processo com uma edição especial de avaliação da caminhada, que acontecerá na Grande Porto Alegre, entre os dias 25 e 29 de janeiro. Além disso, 27 Fóruns Sociais se realizarão ao longo do ano de forma descentralizada com direcionamento ao FSM de 2011, que será realizado em Dakar, na África.

Em entrevista à Adital, Francisco Whitaker Ferreira, o Chico Whitaker, um dos idealizadores do FSM, fala sobre os avanços e desafios dos 10 anos de Fórum, a importância do espaço para os movimentos e organizações sociais, e as expectativas para os próximos anos.


Adital - Em 2010, o Fórum Social Mundial completará 10 anos. Que avaliação o senhor faz desses dez anos de processo? Acredita que o FSM tem cumprido seu objetivo inicial?

Chico Whitaker - Acredito. O objetivo inicial do FSM era o de romper a dominação do "pensamento único" em que se baseava o Fórum Econômico Mundial de Davos: não há alternativa senão o mercado como motor e regulador da atividade econômica. E deste Fórum os "donos do mundo" (multinacionais e dirigentes dos países mais ricos) ditavam as regras para a vida econômica do planeta.

Era o início de um novo século, em que recém se começava a superar, com manifestações de protesto e resistência contra o domínio do mundo pelo capital, a perplexidade causada pela queda do Muro de Berlim, que simbolizou o desmoronamento de toda uma experiência de construção do socialismo. Centrado no "social" e não no "econômico", o primeiro Fórum Social Mundial foi então organizado a partir de outra afirmação: "outro mundo é possível". Com isso ele reacendeu a chama da esperança e da utopia.

Mas a forma como ele foi organizado perseguia outro objetivo: o de facilitar a superação das barreiras e preconceitos que tornavam extremamente fragmentado esse novo ator político que surgia, a sociedade civil. Como resultado, em poucos anos a mobilização social então chamada de luta "anti-mundialização" passou a ser chamada de movimento "altermundialista", ou seja, de construção de alternativas a uma globalização submetida aos interesses do capital. E por toda a parte começou-se a utilizar a palavra "outro" para expressar o sentido das buscas que se faziam na luta por um mundo com mais justiça e mais paz.

Adital - Em 2001, reuniram-se em Porto Alegre entidades, organizações sociais e ONGs contra a hegemonia capitalista e em busca de "um outro mundo". No próximo ano, o FSM volta à cidade gaúcha para comemorar a 10ª edição. O que mudou nesses 10 anos de Fórum?

Chico Whitaker - O Fórum de Janeiro de 2010 na Grande Porto Alegre é o primeiro de uma série de 27 Fóruns Sociais que se realizarão pelo mundo afora durante esse ano, rumo ao próximo Fórum Social Mundial que terá lugar em janeiro de 2011 na África, em Dakar, no Senegal. Esse foi o formato (Fóruns Sociais em todo o mundo) adotado no processo FSM em 2010. O FSM não "volta" portanto a Porto Alegre. Lá se realiza um Fórum Social especial porque nele está contido um grande seminário de avaliação dos dez anos de caminhada, organizado pelo grupo de entidades e pessoas que promoveram em 2001 o primeiro FSM.

Os Fóruns Mundiais realizados nesses dez anos foram todos diferentes uns dos outros, cada um aprendendo com as lições do anterior. Ao mesmo tempo multiplicaram-se os Fóruns Regionais (como o do Sudeste Asiático em 2003, os Europeus - com sua quinta edição em 2010, em Istambul - e o Norte-americano, com sua segunda edição também este ano, em Detroit), os nacionais e os locais.

Mobilizações mundiais significativas foram discutidas e propostas a partir de Fóruns, como a grande Manifestação pela Paz e contra a guerra no Iraque, em fevereiro de 2003, em que quinze milhões de pessoas foram às ruas. Em 2004 um Fórum Social Mundial foi pela primeira vez organizado em outro país, com sucesso - na Índia, onde a participação de movimentos populares foi marcante. Os formatos foram também se alterando, intercalando-se entre os Mundiais outros tipos de manifestação, como em 2006 os três Fóruns quase simultâneos em três continentes, um Dia Mundial de Ação em 2008, a série de Fóruns agora em 2010. Firmaram-se algumas orientações básicas - contidas numa Carta de Princípios cada vez mais aceita como referência geral - como o caráter do Fórum como um espaço aberto, a horizontalidade na organização de atividades nesse espaço, a auto-organização dessas atividades, a recusa de um documento final único, a não designação de dirigentes ou porta-vozes, o respeito à diversidade.

As temáticas discutidas foram se ampliando, como em 2009 onde sua realização na Amazônia estimulou a abordagem da questão ambiental e da problemática dos povos originários de todos os continentes, a partir das lutas indígenas do Brasil e da América Latina.

Diversas intuições dos organizadores foram igualmente se desdobrando, como a adoção da regra do consenso nas decisões organizativas, e a busca da união dentro da diversidade como grande objetivo a ser alcançado no processo. E a participação foi quase sempre crescente, das 20.000 pessoas do FSM de 2001 às 150.000 do FSM em Belém, em 2009.

Adital - Da primeira edição até agora, episódios significativos marcaram o mundo, como, por exemplo, a Crise Financeira Mundial. Como o FSM lida com essas questões?

Chico Whitaker - O episódio mais significativo vivido pelo mundo na década foi, sem dúvida, a recente Crise Financeira, que desmontou o mito da capacidade de auto-regulação dos mercados. Muitos, inclusive, disseram que ela veio dar razão ao FSM como espaço de proposição de outro tipo de globalização.

Mas esses temas são discutidos pelos participantes dos Fóruns dentro de uma visão de conjunto da série de crises que vive o mundo - alimentar, política, energética, ecológica... O que levou neste ultimo Fórum, de 2009, a que os indígenas andinos propusessem a realização em 2010 de um Fórum Temático sobre o que chamaram de "crise de civilização". O FSM enquanto FSM não pode se posicionar frente a essas crises, uma vez que é somente um espaço de encontro e articulação. Mas seus participantes vêm construindo, no processo, cada vez mais redes e alianças para atuar mais eficazmente

Adital - Apesar de ser um processo lento, já é possível afirmar que as propostas do Fórum começam a se concretizar como verdadeira alternativa para "outro mundo"?

Chico Whitaker - Sem dúvida o processo do Fórum vai permitindo cada vez mais visualizar como deve ser construído o mundo que queremos, e que valores devem reger nossas vidas para escaparmos daqueles impostos pela lógica capitalista. Ao mesmo tempo vai-se descobrindo que outras formas de fazer política são necessárias, e que mudar o mundo implica na multiplicidade e numa enorme variedade de intervenções na realidade. Começa a crescer a consciência da importância de assegurar que os bens comuns da humanidade não possam ser privatizados nem transformados em mercadoria, como é exigido pela dinâmica essencial do capitalismo.

A economia solidária, por sua vez, juntamente com formas de comércio justo, vai se espalhando pelo mundo afora. A esperança no "outro mundo possível" tem influído também na eleição de dirigentes políticos, pelo menos na América Latina. Mas talvez a crise ecológica seja atualmente a que mais pode fornecer alternativas capazes de "acordar" as pessoas para a necessidade urgente de mudar nossos modos de produção e de vida.

Adital - Qual a importância do Fórum para os movimentos sociais? Eles têm participado de forma efetiva do processo?

Chico Whitaker - O Fórum existe para que aqueles que consideram que outro mundo é possível - além de necessário e urgente - possam se reconhecer mutuamente, aprender uns com os outros, descobrir convergências, construir novas alianças. Como um encontro aberto para toda a sociedade civil, ele é um espaço por excelência para os movimentos sociais que considerem que tudo isto é útil para eles, e que estejam interessados em ganhar força unindo-se com outros movimentos sociais, com ONGs e com as diferentes entidades que congregam os vários setores da sociedade civil. Assim eles só não usam essa oportunidade que lhe oferecem os Fóruns quando estão mal informados sobre os objetivos do processo FSM, ou estão bloqueados por preconceitos ou isolados pelos seus modos de atuação. Mas estes obstáculos à participação vão sendo pouco a pouco superados.

Adital - Há uma tentativa de criminalização dos movimentos sociais no Brasil assim como em outros países da América Latina e do mundo. Nesse aspecto, o FSM serve também como espaço de fortalecimento das lutas e da descriminalização desses movimentos. Pode falar sobre isso?

Chico Whitaker - Estas tentativas de criminalização dos movimentos sociais fazem parte da estratégia dos que não querem mudar o mundo - porque nele, como ele é, são privilegiados - para amedrontar e paralisar os que questionam seu poder e lutam por justiça. O tema é evidentemente discutido nos Fóruns e neles nascem estratégias e alianças para fazer frente a essas tentativas, formando-se redes de resistência e lançando-se campanhas de denúncia. A eficácia dessas alianças depende naturalmente da convicção, dos que delas participam, da importância dessa resistência.

Adital - A edição anterior contou com a participação de governantes do Equador, Bolívia, Venezuela, Paraguai. Como se dá esse diálogo com os governos ditos progressistas ou de esquerda?

Chico Whitaker - O objetivo do processo do FSM de reforçar a atuação da sociedade civil implica em assegurar sua autonomia em relação a governos e partidos. Por isso mesmo nem governos nem partidos podem, enquanto tais, organizar atividades nos Fóruns. A presença de governantes ("ditos progressistas ou de esquerda") depende portanto de convites a eles dirigidos por participantes de cada Fórum.

Mas dentro dessa perspectiva a tendência não é a de oferecer palanques mas de organizar diálogos, já que a sociedade civil atua tanto pressionando como controlando governos, além do que possa fazer por ela mesma. Pode-se dizer que, na verdade, as atividades nos Fóruns de que participam governantes têm sido muito mais importantes para esses governantes do que para os participantes dos Fóruns.

Adital - Quais as perspectivas e os desafios para edições do FSM dos próximos anos?

Chico Whitaker - É preciso tornar cada vez mais consciente entre organizações e movimentos sociais que a busca de sua articulação e união é condição essencial para que se enfrente o monstro da ideologia capitalista, que domina inteiramente corações e mentes em todo o planeta. O processo Fórum pode ser um ótimo instrumento para essa tomada de consciência. Mas falta muito para que ele seja visto dessa forma por todos os militantes e dirigentes desses movimentos e organizações. E há ainda muitas regiões do mundo - mal começamos a torná-lo conhecido na África e menos ainda na Ásia - em que o processo Fórum ainda não chegou a ter uma presença significativa.

Mas tanto essa expansão como o aprofundamento da consciência da utilidade e das potencialidades do processo passa pela construção de consensos entre os que organizam os Fóruns. O desafio para mim é o de conseguir que prevaleça a visão de conjunto e de longo prazo, apesar da extrema urgência da mudança. Mas muitas vezes a angústia por resultados palpáveis leva a tomar caminhos que podem se bloquear mais adiante. A experiência dos dez anos de caminhada me faz, no entanto, crer na continuidade e no enraizamento do processo.
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Karol Assunção/Adital

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Holocausto

Primo Levi, Auschwitz: dentro era el infierno, fuera no es el paraíso

Marcos Winocur (Desde México. Especial para ARGENPRESS CULTURAL)

Todavía estaba lejos la primavera cuando los prisioneros de Auschwitz la vivieron anticipadamente: el 27 de enero de 1945 era liberado el mayor campo de exterminio nazi, ubicación: Polonia ocupada. Aquellas primeras horas sin embargo no fueron de júbilo, pocos daban crédito a lo que veían. Los soldados aliados, camino de Berlín, ante un espectáculo de pesadilla. Los prisioneros ante ¡las puertas abiertas! No se había cumplido el vaticinio de los carceleros: “de aquí sólo se sale por las chimeneas”. No por cierto las chimeneas de Papá Noel, sino de los hornos crematorios.

Primo Levi, el escritor italiano, estuvo entre los prisioneros de Auschwitz, sobrevivió y suyo es uno de los más lúcidos testimonios que se integran al proceso al nazismo, el cual no se ha cerrado. Han pasado décadas y todavía nos interrogamos sobre sus causas y algo se anticipa a lo reflexivo, nubla la vista, y es la naturaleza del hecho: los planes de exterminio formulados y puestos en práctica, ese genocidio industrial, sí ocurrió: entonces el espíritu más firme trastabilla, y pareciera que todo está perdido, “todo es una mierda”, dicho sea en expresivo lenguaje popular.

Theodor Adorno nos ha interrogado a todos: después de Auschwitz ¿puede alguien escribir poesía? Incluso más: ¿puede alguien continuar disfrutando de la vida? Y sin embargo, durante Auschwitz hubo el prisionero que sigilosamente escribió unas líneas de poesía sobre una pared de las barracas. Por su parte, Víctor Frankl, otro de los sobrevivientes de ese campo, viene en auxilio: “hemos llegado a saber lo que realmente es el hombre. Tanto ha inventado las cámaras de gas como ha entrado en ellas con la cabeza erguida y el padrenuestro o el ‘shema yisrael’ en sus labios.” Sí, ocurrió el genocidio industrial, el de las fábricas de la muerte, pero no todo está perdido. Claro, igual nos gana la repugnancia ante el hombre verdugo del hombre, y dejamos caer los brazos. Y más de cuatro décadas después de su liberación, llegó un día así para Primo Levi, ya anciano: todo es visto como un abismo abierto a nuestros pies, y ése fue el hueco de las escaleras por donde se arrojó, esta vez contradiciendo la primavera, un 11 de abril de 1987.

Fue una malísima noticia. Veíamos en el escritor italiano de origen judío, miembro de la resistencia antifascista, sobreviviente del horror, testigo al principio no escuchado y finalmente premio Strega, veíamos en Primo Levi un símbolo de la vida triunfando. La noticia de su suicidio nos cayó muy mal. Pero no tenemos derecho a reprocharle nada. Había cumplido con su misión de denuncia, en adelante su vida le pertenecía. Auschwitz no se cobraba una victoria póstuma, ya había sido derrotado por la pluma del escritor. Desde luego, no ha sido el único. El premio Nobel 2002, el húngaro Imre Kertész, también prisionero de Auschwitz, tema de su novela “Sin destino”, se ha dado igual misión que Levi. Puede decirse que hay una bibliografía del tema, escrita por las víctimas y donde no falta el testimonio de los carceleros, recogido por historiadores y periodistas.

Y bien, Auschwitz, años cuarenta, en curso la II Guerra Mundial. Dentro del campo, la esperanza estaba puesta en el avance de las tropas aliadas. Mientras tanto, el hambre era la rutina diaria. En ocasiones cedía el primer lugar al frío, y la primavera resultaba tan ansiada como el alimento. Primo Levi recuerda un día, un “día feliz” para un grupo de prisioneros. Era el invierno y el sol entibiaba más que de costumbre, y por un azar les llegó suficiente comida. Volaron por un momento los pensamientos lejos, la libertad, el regreso al hogar... ¡cuidado! los sueños estaban prohibidos en Auschwitz por salud mental, acababan haciendo daño, pero la voluntad no pudo acallarlos ese día y renació la esperanza de salir por las puertas, no por las chimeneas.

Como brevísima llamarada, los esclavos recobraron la calidad humana. Pudimos reconocernos -apunta Levi- “desdichados a la manera de los hombres libres”. Es curioso que diga “desdichados” y no “dichosos”. El autor es y será escéptico toda su vida. Joven de veinticuatro años, está encerrado en el campo del horror y sólo de milagro saldrá por las puertas. Tan anheladas, no se engaña: una vez traspuestas, afuera no le aguarda la felicidad, más bien una desdicha de otro tipo. Infinitamente menor, cubre la distancia que va de lo subhumano a lo humano. Y a pesar de esa brutal diferencia, Levi no se hace ilusiones: si dentro del campo es el infierno, fuera no es el paraíso. Y la prueba: allí, desde el mundo de “los hombres libres”, se planeó y ejecutó el holocausto, hubo mentes capaces de ello, y siguieron activas más allá de las alambradas y hasta el fin de la guerra.

Ya liberado, de regreso con los suyos, Levi nos cuenta cómo una pesadilla recurrente no lo deja en paz. Está otra vez en Auschwitz y alcanza a ver lo de fuera, el movimiento familiar dentro del hogar, las flores de los jardines, los amigos reunidos en la cafetería de siempre, pero siente que todo eso es irreal, no hay fuera ni dentro, Auschwitz ha copado el mundo y en realidad él nunca ha salido del campo... es cuando vuelve a oír la voz del “kapo: ¡levantarse!” Despierta, no es cierto, eso quedó atrás, pero teme volver a dormirse. Y las preguntas asaltan su razón. ¿Otra vez habrá campos de exterminio? ¿O ya no serán necesarios, las armas de destrucción masiva harán sus veces? Otras mentes ¿abrigan hoy esos planes? ¿Habrá sido vano mi testimonio?

Y un día su razón, así agobiada, después de cortar un tratamiento con antidepresivos, no es capaz de frenar el impulso y se arroja al vacío. A pesar de todo, de este final de su vida, unas chimeneas se han impuesto a las otras. Siempre estuvieron en las antípodas. También sus recorridos son contrarios. Papá Noel entra por las chimeneas y sale por las puertas. En Auschwitz se entra por las puertas y se sale por las chimeneas. Un recorrido representa la vida, el otro es la muerte. Papá Noel, cargado de regalos mientras el trineo lo espera en la calle, las chimeneas le franquean el paso e invitan a la fraternidad navideña. Las otras, desde el museo en que se ha convertido Auschwitz, se suman a la prédica de los sobrevivientes, y dicen: nunca más el nazismo. Sí, unas chimeneas se han impuesto a las otras.

Lejos ya de las pesadillas y de los recuerdos envenenados, descanse en paz Primo Levi, misión cumplida.