Democracia:

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"Ensina-me SENHOR a ver as minhas próprias faltas e apaga-me a vocação de descobrir as faltas alheias." Emanuel

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Lula

O que uma menina de 15 anos pensa do Lula, do PT e da grande mídia… Essa é para começar o ano com esperança!
Publicado em 03/01/2010 por Ana Helena Tavares

Presidente Lula
Por Carolina Matos Leandro*, da Juventude do PT, em seu blog dedicado à política
Para aqueles adultos, que criticam o presidente Lula, ou que se dizem Anti-petistas, ou para aqueles jovens, que ainda não sabem muito da política, mas dizem que sabe, só por influência da mídia.
Olá. Pessoal, meu nome é Carol, e eu tenho 15 anos. Sim,ainda sou nova. Mas acreditem, isso não é um problema!
Vim aqui, explicar umas coisas, sobre a política que tenho certeza de que muitos adultos e jovens ainda não sabem.
O partido do Lula é o PT, certo? Então, logo o PT é da esquerda certo? Então vamos lá, pra quem não sabe:
Há muito tempo atrás a política foi dividia em esquerda, e direita. O partido da esquerda é dos os pobres, e o da direita é dos ricos. E sim, não ERA, mas É. E hoje, o partido da esquerda, inclui o PT, o PSB, o PCdoB. E o da direita, o PSDB, o PP, e o DEM. Os do centro, que são de vez em quando esquerda, e de vez em quando direita, são : PMDB (que é mais esquerda), PR(que é mais direita), e outros que não lembro agora. Tem os da extrema esquerda, que é o PSOL e o PSTU (acho que é só esses ,não tenho certeza se lembrei de todos agora).
Pois então, os partidos da DIREITA, e centro que acompanham mais a direita então vão defender, e apoiar a quem? OS RICOS, certo? Então, os partidos da ESQUERDA, e EXTREMA ESQUERDA,vão defender,e apoiar a quem? Os POBRES, certo?
Então digam-me uma coisa.. Mas porque vocês, vários adultos que conheço, que são de classe baixa e classe média, ficam aí defendendo os partidos de direita,mandando e-mail falando mal e mais mal do Lula, sendo que ele, foi o presidente do Brasil, que abaixou tanto o índice de pobreza no Brasil? E mesmos os ricos, que já têm tanto dinheiro, qual é o motivo de o criticarem? O que estou querendo dizer é,os pobres que precisam de maior atenção, pois são eles que trabalham duro pra ganhar tão pouco,são eles que passam fome, que não têm dinheiro suficiente para dar um almoço digno aos seus filhos. Porque quando o Lula falou, que essa crise aqui no Brasil é uma marolinha, ficaram achando tão ruim? Agora que sabem, que realmente foi uma marolinha, o que têm a dizer? Para os donos de empresas,indústrias, isso não afetou em nada. Mas eles não esperaram a hora de ter uma desculpinha para falar e de repente despedir vários empregados, só pra terem mais lucros, mais ainda do que têm. Lula não mentiu nem um pouco ao falar isso. E por que quando estão numa estrada ruim, esburacada que faz parte da federal, só criticam o Lula, sendo que nem pensam no desvio, que o governo ou o prefeito da cidade, pode muito bem ter feito? E por que ficam vendo tanto a globo, e acreditando em tantas reviradas que fazem contra o Lula, sendo que os donos da Globo são ricos, e como expliquei, os ricos criticam os partidos de esquerda, principalmente o PT, justo porque o governo PT é de esquerda, e está forte?
Pensem nisso!
*Obs: Carolina havia mandado este mesmo texto em versão reduzida para o fórum de comentários da aba superior “Brasil” deste blog “Quem tem medo do Lula?” em 26 de Junho de 2009. Como hoje, 03 de Janeiro de 2009, ela honrou-nos novamente com sua presença lá, dando o link do texto no blog dela, resolvi então reproduzir como postagem, pois vale a leitura.
Arquivado em: Brasil, PIG, Política | Etiquetado: Juventude, lula, PT |

Cinzas e Diamantes

De cinzas e diamantes
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Por Jorge Pinheiro






Disse o pregador: "Há tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz".

Memórias. Em setembro dei uma entrevista a uma historiadora, minha amiga, e a conversa me fez recordar os anos 60. E me lembrei que, em 1965, ali no cinema Paissandu, na rua Senador Vergueiro, no Flamengo, travei um contato histórico com o melhor do cinema polonês, com o filme Cinzas e Diamantes (1958), o último filme da trilogia do diretor Andrzej Wajda sobre a Segunda Guerra Mundial.

O filme falou ao meu coração de jovem revolucionário, e foi gostoso ver como minhas leituras e sonhos se casavam com a estética de Wajda. Para quem não viu, a história de Cinzas e Diamantes acontece no último dia da guerra. Maciek, jovem membro da Resistência, interpretado por Zbigniew Cybulski, é militante do grupo que se opõe ao novo regime comunista e recebe ordem de matar um líder do PC. Maciek entra, então, em crise político-existencial: cumprir a ordem no momento em que a guerra chega ao fim ou rebelar-se. Não vou contar o filme, porque vale a pena você pegá-lo numa locadora. Mas é importante você saber que o pai de Wajda foi assassinado no início da guerra e que o próprio cineasta lutou na resistência contra os nazistas.

O filme foi baseado num romance de Jerzy Andrzejewski, um dos mais lidos da Polônia do pós-guerra. Esgotou vinte edições, sendo apontado como um dos mais importantes romances poloneses. Recebeu vários prêmios, entre eles da Academia Britânica de Cinema e do Festival de Cinema de Veneza, os dois em 1959. Mas, com a queda do regime, críticos se levantaram contra o romance de Andrzejewski e o filme de Wajda.

Nessa época, um dos expoentes da doutrina social da igreja católica, o padre Paul-Eugène Charbonneau, escrevia que "só uma verdadeira ordem social cristã (...) restituirá ao homem (...) sua liberdade total. Porque o combate social é um combate pela liberdade do homem, a qual nem o capitalismo, nem o comunismo respeitaram. Gorki tem toda a razão: Há muitos poucos homens livres no mundo, e é isso que faz a desgraça da humanidade".

Em 1967, eu me ligara a Ação Popular (AP) e, como estudante de Jornalismo da PUC/Rio, atuava no Centro Acadêmico das Ciências Sociais. Era uma época de boas discussões sobre a possibilidade do marxismo e do cristianismo caminharem em direção a um humanismo radical. A Ação Popular surgiu a partir do trabalho de antigos militantes da Juventude Universitária Católica (JUC).

Foi uma tentativa de construir um socialismo mais humano e, por isso, buscou inspiração em teólogos católicos como Teilhard de Chardin, Jacques Maritain e o padre Lebret. Teve também uma leitura protestante, cujo maior representante foi Paulo Stuart Wright. Foi de início uma organização predominantemente estudantil, e entre seus líderes podemos citar o Betinho (Herbert José de Souza), José Serra, Vinícius Caldeira Brant e Aldo Arantes. Sua mais expressiva liderança camponesa foi Manoel da Conceição, ativista das Ligas Camponesas.

Os debates na AP, apesar de interessantes, não me atraíam. Afinal, eu não me situava no campo da doutrina social da igreja. É certo que o tema da liberdade me sensibilizava, mas não o da religião. Era marxista, e tudo levava a crer que minha militância junto ao socialismo cristão da AP não deveria durar muito.

Para mim, religião era questão resolvida, pois concordava em gênero, número e grau com Marx. Ele, em suas obras filosóficas, mas especificamente na Contribuição à crítica da filosofia do direito de Hegel, diz que “a miséria religiosa é, de um lado, a expressão da miséria real, e, de outro, o protesto contra a miséria real.” Hoje, a partir de Gramsci e de Dussel, faço uma nova leitura deste texto, mas, à época, não.

Por isso, partir para o enfrentamento com o regime militar era só uma questão de esperar, para ver onde se daria a seqüência de minha ação militante. Assim, no final de 1968, já não estava na Ação Popular. Tinha começado minha militância política no Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). Só que agora, além de estudante de Jornalismo na PUC, era também jornalista da revista Manchete.

Foi em 1968 que vi mais um lindo filme, também ali no cine Paissandu: Trens Estreitamente Vigiados (1967), dos checos Jiri Menzel e Bohumi Hrabal, premiado com o Oscar da Academia de Hollywood como melhor filme estrangeiro de 1968.

Trens Estreitamente Vigiados também foi baseado em livro, do escritor Hrabal, uma obra autobiográfica. Nele, Hrabal traça um paralelo entre o sofrimento do povo checo debaixo da ocupação nazista e a desilusão de um jovem envolvido com conterrâneos que colaboram com os nazistas.

Hrabal viveu anos difíceis por causa de seu clamor e sua independência. Mas três milhões de leitores checos o amavam, e a crítica internacional acabou por descobri-lo. E as razões de seu sucesso também tocaram fundo meu coração, seu existencialismo explícito e sua resistência permanente ao totalitarismo.

Anos mais tarde, escrevendo sobre arte e revolução, Marcuse traduziria essa relação ao dizer que a arte, em virtude de sua própria qualidade subversiva, está associada à consciência revolucionária. Mas, agregava: quando a consciência de uma classe é integrada e embotada, a arte revolucionária será o seu oposto. E dava um exemplo que me obrigou a refletir sobre a União Soviética: onde os trabalhadores forem não-revolucionários, a arte revolucionária não será arte proletária.

A busca da compreensão dessa dialética abriu o caminho para a leitura de textos que iam de Trotsky à nova esquerda norte-americana. Memórias.

Talvez por isso o pregador deu seqüência ao seu discurso sobre o tempo, dizendo: "Deus marcou o tempo certo para cada coisa. Ele nos deu o desejo de entender as coisas que já aconteceram e as que ainda vão acontecer, porém não nos deixa compreender completamente o que ele faz".

12/7/2008

Mais sobre Jorge Pinheiro

Sobre Novela de memórias: um pedaço de mim, obra recente de Jorge Pinheiro, leia: www.viapolitica.com.br/anima_view...

Battisti

Os “argumentos” contra Battisti
Por Carlos Lungarzo em 04/01/2010
Anistia Internacional

Há uma tendência na esquerda, e entre os partidários de tendências iluministas, humanistas e libertárias em geral a identificar a qualidade ética de uma pessoa com sua inteligência, agudeza e informação. Isto parece uma adesão à antiga identidade entre o bem e a razão ou, em termos mais modernos, entre o espírito humanitário e altruísta e a capacidade de argumentação.
Esta identificação está presente nos filósofos gregos, especialmente em Platão, mas também nos hedonistas e nos epicúreos, atravessa a obra de Descartes, vira um assunto central nos cientistas pós-newtonianos, e se torna quase um dogma para a geração Iluminista do século 18. Este intelectualismo está presente nas cartas trocadas por Marx e Engels, que não ocultavam seu desprezo pelos raciocínios grosseiros das elites, pela ignorância de nobres, militares e burocratas e pela barbárie cultural da direita. Inclusive, apesar de sua injusta desconfiança do anarquismo, Marx emocionou-se até chorar ao lembrar o talento de Bakunin, durante o funeral deste em 02/09/1853. (Marx-Engels-Werke, V. 12, p. 284).
Outro fato que reafirma, pela negativa, a relação entre ética e inteligência, é que, durante o forte misticismo ocidental (sec. 4º ao 16º) quando o ser humano foi mais humilhado, ao mesmo tempo a ciência e o conhecimento crítico desapareceram até Galileu.
Entretanto, não é possível tomar a relação moral/inteligência como uma verdade absoluta. Isso criaria uma hierarquia moral das pessoas em função de suas capacidades, o que é uma visão reacionária do mundo. Lembremos, além disso, que simpatizantes do nazismo, como Max Plank e Heisenberg, foram mentes brilhantes em suas especialidade e que Enrico Fermi foi um homem muito inteligente, apesar de ter contribuído a criar a primeira bomba nuclear.
Em minha opinião, a relação precisa entre inteligência e ética é difícil de especificar e talvez precisemos muitas décadas de psicologia para conhece-la num 50%, se tanto. Entretanto, é evidente uma conexão estreita entre ambas, como o mostram os exemplos: é quase impossível encontrar um ditador inteligente, um genocida com algum talento universal, um racista com alguma compreensão do mundo, uma pessoa preconceituosa que impressione por sua racionalidade. Existem muitos casos de pessoas sem escrúpulos com grandes destrezas específicas, mas é difícil encontrar algumas dotadas de inteligência ampla.
Por que toda esta reflexão? Há um ano que, por causa da concessão de seu refúgio/asilo, Cesare Battisti virou conhecido e a opinião pública se dividiu entre os que pediam sua liberdade e os que exigiam sua deportação. Durante este ano, li o equivalente a dúzias de milhares de páginas de jornais, revistas e documentos, e fiquei estarrecido ao fazer uma comprovação:
Nenhum dos argumentos contra Battisti demonstrava a mínima racionalidade, o menor uso de pensamento ou sensibilidade. Como disse antes, não acho que uma cognição apurada implique necessariamente grande estatura moral, nem vice-versa, mas fiquei apavorado pela relação evidente entre pensamento brutal e grosseiro com ódio pelo refugiado.
Acredito, sim, que existam pessoas autocentradas, sem interesse no próximo, que possuam uma visão do mundo bastante ampla. Um destes casos era Leonardo da Vinci, considerado por seus biógrafos mais atuais como egoísta e violento.
Entretanto, as coisas mudam quando aparece um componente de ódio, uma espécie de fanatismo contra tudo o que é diferente, como o que caracteriza o machismo, o racismo, a xenofobia, o imperialismo, o linchamento e todos os sentimentos de direita em geral. Nesses casos, ou a inteligência não é suficiente para evitar a contaminação pelo ódio, ou então, a prevalência do ódio faz aparecer a inteligência como difusa, esvaída, quase inexistente.
Não quero dizer que alguém que sustenta uma posição não-humanitária possua, necessariamente, um entendimento tacanho, embora isso quase sempre acontece. Tenho uma experiência interessante sobre isso. Conheci a Ayres Britto depois de ele ter votado pela extradição, e me surpreendi ao compara-lo com os outros quatro juízes que votaram no mesmo sentido (com os que, afortunadamente, não devi conversar). Britto é um homem cordial, desprovido da empáfia jurídica, um temperamento simples: escreve poesia e gosta de Chico Buarque. Sabe conversar sobre coisas que não estão nos códigos. Aliás, ele não tinha nenhum ódio contra Battisti. Se eu entendi bem, ele achou que não havia motivos para negar a extradição, assim de simples. Se Itália o pedia, saberia por que. Não era submissão à autoridade, apenas rotina. Se alguém morria por isso, não era seu assunto.
Ele não estava contente por entregar uma vítima aos La Russa e os d’Alema da vida. Simplesmente, fez o que parecia mais linear. Afinal, a justiça formal é isso. Então, percebi que era uma pessoa inteligente que não camuflava seus pensamentos: justiça formal nada tem a ver com verdade ou humanismo; é um trabalho.
Mas, não quero referir-me aos que apenas “votariam” contra Battisti, mas aos que estão engajados na causa de triturar uma pessoa para eles desconhecida, que lês estorva por vários motivos:
(1) Porque representa a esquerda. (2) Porque desafia sem temor o terrorismo de estado. (3) Porque não se ajoelha. (4) Porque é uma mente criativa. (5) Porque têm amigos de uma qualidade que seus inimigos nunca reuniriam nem em várias reencarnações. A maior atriz européia dos anos 50, Jeanne Moreau, o Nobel de Literatura Garcia Marques, a talvez maior romancista de enredos policiais das últimas décadas, Fred Vargas, grandes advogados, líderes políticos franceses, e também os melhores amigos brasileiros: Suplicy, José Nery, Luiz Couto e outros.
Essas pessoas que odeiam Battisti não conseguem produzir um argumento bom. Foi por isso que decidi classificar os “argumentos” contra Battisti em várias espécies. Acredito, porém, que esta é uma obra para toda uma equipe e quaisquer enriquecimentos a meu trabalho (muito pretensioso para uma vida só) serão bem-vindos.
Observação: Não gosto de entrar em polêmicas. Se você defende honestamente, de maneira errada ou certa, uma causa, o pior que pode fazer é tornar sua causa um espetáculo de circo. Por isso também não gosto citar ninguém, salvo fontes de mérito que menciono como prova. Neste caso deve ser diferente, mas apenas menciono os autores para que o leitor, se quiser, possa encontrar o assunto mencionado.
A Crítica Através do Elogio
Em alguns casos, o crítico (ou crítica) acha mais confortável elogiar a alguém que ataca Battisti, do que ele próprio fazer sua argumentação. No caso de pessoas ligadas ao direito, uma maneira habitual é tecer uma série mirabolante de elogios a qualquer frase trivial que tenha dito um magistrado inimigo do escritor italiano.
É o caso, entre milhares de outros, do senhor Daniel Bialski, num trabalho intitulado Interesse em Extradição de Battisti é incomum, que me pareceu o mais paradigmático pela bizarrice e servilismo de seus elogios.
http://br.groups.yahoo.com/group/niem_rj/message/5573
“O que se teria visto, na visão do eminente e futuro presidente da Corte Suprema, ministro Peluso, [...] que é atribuição exclusiva da Excelsa Corte.” (Grifos meus)
Existem muitos outros casos que não merecem ser citados, porque não são tão grotescos, mas em todos eles se elogia cafonamente, seja o magistrado, seja a “obra da sua lavra” (ou seja, o escrito de sua autoria). Dessa maneira, se dá um tiro por elevação contra Battisti, usando munição alheia.
Este fenômeno faz parte de um fetichismo, pelo qual se transformam em reais, e até em antropomórficas, entidades que são puras abstrações conceituais. Por exemplo, se elogia a cultura italiana, como se toda Itália fosse um organismo homogêneo que atua sempre da mesma maneira, ou se atribui sacralidade a simples funções profissionais de uma pessoa, por exemplo: “o sábio julgador”.
Comparações Sinistras
Às vezes, para descompor Battisti, os autores usam comparações que são simplesmente repugnantes. É o caso de Alon Feuerwerker, em Diversos pesos, diversas medidas, cuja matéria começa assim:
http://br.groups.yahoo.com/group/niem_rj/message/5573
“A operação política para salvar Battisti decorre de ele ter origem na esquerda. Fosse um militar argentino condenado por crimes na ditadura, estariam os mesmos exigindo, já, sua extradição para Buenos Aires.”
Essa comparação não mede só o nível ético do autor, mas também o cognitivo. Alguém que compara um acusado qualquer (mesmo se fosse o pior criminal comum do mundo, mesmo se fosse o atual chefe de Al-Qaida), com genocidas patológicos e torturadores insanos do exército argentino, demonstra pouca fineza cognitiva. A maioria dos que concedem algum valor aos genocidas argentinos, chilenos ou brasileiros (ao ponto de comparar-los com outras pessoas), costumam ter a esperteza de ocultar suas intenções.
Uma pessoa melhor dotada teria dito: “fosse um fascista…” Aliás, estaria perto da realidade, porque há um fascista italiano que seu governo “simula” querer extraditar. Aliás, para dar palpite num assunto que parece ser sobre direito, o autor conhece pouco: parece que não sabe que “crimes de lesa humanidade” são uma espécie diferente dos políticos e dos comuns.
A posição dos defensores de DH é que, se o fascista não cometeu crimes contra humanidade, deve receber a mesma proteção que Battisti, caso que realmente a Itália o quisesse extraditar, o que parece ridículo.
A Linguagem Injuriosa
Um terrorista, por definição, é uma pessoa que pratica terrorismo. É difícil que alguém que esteja fechado numa prisão durante o dia todo pratique terrorismo. Entretanto, a Folha de S. Paulo chama Battisti de terrorista desde que caiu preso. Um amigo meu mando uma carta à Folha e, como jornal aberto e respeitoso da liberdade de imprensa, substituiu “terrorista” por “ex-terrorista” por algumas semanas. (Posteriormente, voltou a usar terrorista, que causa mais impacto).
Além disso, terrorismo é um termo definido numa comunicação das Nações Unidas que, apesar de não estar aprovada por todos os membros, tem ampla credibilidade. Mas, se os jornalistas querem usar uma definição vernácula, podem ler a ementa de Extradição de novembro de 1989 (República Argentina contra Fernando Falco; denegada), onde o relator Sepúlveda Pertence diz claramente, que uma ação violenta só pode ser chamada terrorista “se utiliza armas de perigo comum (como explosivos ou canhões) e coloca massivamente em perigo a população civil”.
Se Battisti tivesse matado essas 4 pessoas, ou ainda, 40 pessoas, uma por uma e usando uma pistola, seria um assassino, mas ainda assim não seria um terrorista.
O Critério de Autoridade
Isto é muito comum no Direito, na vida comum, e em qualquer atividade não científica. Aliás, é típico das crenças políticas fanáticas, as religiosas e as morais, que não tenham base no direito natural. Entretanto, no caso Battisti o abuso aberrante e servil do critério de autoridade chegou às alturas.
Quando o senador Suplicy, num de seus típicos atos se simplicidade, humanidade e grandeza, levou ao Senado um documento redigido pela romancista Fred Vargas, alguns dos gênios togados foram tocados pela histeria. Como era isso possível: “alguém de fora” (que não é juiz, nem mesmo advogado) vai lançar no rosto do relator todas as infâmias cometidas.
De fato, os que assim chiaram eram coerentes. A justiça não é uma coisa pública: é propriedade privada de uma sociedade secreta que decide a contramão da verdade, da lógica e do bom senso, segundo sua conveniência profissional ou… de outro tipo. Esse documento continha 13 perguntas magnificamente colocadas, com impecável referência às fontes, onde a escritora descrevia as fraudes, distorções e omissões dolosas feitas no relatório. Por sinal, a carta de Fred estava redigida num estilo educado, porém respeitoso demais para o que merecem jogadores de cartas marcadas.
Veja o link: http://cesarelivre.org/node/143
Agora, um caso geral: a aceitação de todos os linchadores de que Battisti realmente matou 4 pessoas. Isto não é apenas uma crendice da massa desinformada, mas também uma forma de legalizar uma mentira. Qual é a vantagem? É a de ter um bode expiatório. Todos os que conhecem as religiões monoteístas (a imensa maioria do país) sabem o que isso significa. É alguém para destruir, como a Geni da música de Chico Buarque.
Obviamente, a mesma lei justifica esta aberração. A pessoa pode ser extraditada sem verificar se teve o devido processo. Basta que tenham todos carimbos necessários. Hoje, é óbvio que os crimes atribuídos a Battisti não estão provados por evidências tangíveis, que não há testemunhas que não sejam falsas ou compradas, que não houve advogados e, ainda, que os autores dos quatro assassinatos estão perfeitamente identificados.
Se as pessoas que escrevem em jornais, blogs, etc., que Battisti matou quatro pessoas, afirmassem, com as mesmas provas, que João da Silva deu um cheque sem fundo, seriam imediatamente processados por calúnia.
Finalmente, um caso exacerbado de servilismo com a autoridade, que chega a negar a mesma realidade: é a refutação que o Relator do Caso Battisti faz do terrorismo de estado na Itália descrito, de maneira exageradamente tênue e light por Tarso Genro.
Qualquer pessoa informada, mesmo muito jovem (há muitos exemplos em quase adolescentes que escrevem blogs maravilhosos) sabe que entre 1969 e 1981, houve na Itália um enorme número de atentados a bomba em locais públicos, com milhares de civis mutilados, incluindo crianças e mulheres, e centenas de mortos. Quando o relator escreve isso em seu tóxico libelo, leva o assunto na brincadeira. Numa linguagem muito mais austera, como cabe ao bom juridiquês, disse coisas como estas.
“Vamos, seu Tarso. Não venha com manhas. Essa história de terrorismo fascista, sim, eu também ouvi falar, mas não houve nenhuma condena. Chega de brincadeira”.
Uso de Linguagem Hermética
O recurso ao juridiquês é um dos truques preferidos para que nada se entenda. Seu uso é tão perverso que, ás vezes, nem os mesmos colegas de aqueles que o usam conseguem entender se seu cúmplice diz A, ou disse não A. Em parte, isto provocou várias confusões no STF, especialmente quando o famigerado julgamento das “células tronco”.
O relatório sobre Battisti está contaminado por juridiquês de alerta vermelho, entremeado ainda por versões bilíngües de textos (sic) e outros elementos confusionais. Entretanto, prefiro citar um texto desconhecido onde se usa um termo em juridiquês que é hermético até pelos leguleios mais rançosos. É sempre falando em Battisti:
“A Suprema Corte, então, rejeitou os argumentos da mavórtica defesa do extraditando e deferiu o pedido do governo italiano, fazendo o controle da legalidade necessário, fundamentando-a.”
Bialski, Interesse (mesmo link).
Você sabe o que é mavórtica? Nem eu. Procurei no Google, um buscador que traz milhões de entradas para qualquer termo, mesmo que seja em tamil ou húngaro, mas aqui só tinha 91. A maioria eram perguntas desesperadas (de quem?) pedindo ajuda sobre o significado da palavrinha. Por aí, apareceu alguém que explicou que “mavórtica” é feminino de “mavórtico”, que deriva de Marte, o Deus da Guerra. Então, no contexto de nosso erudito, a defesa dos advogados de Battisti era guerreira ou belicosa. Cuidado. Se vocês conhecem a Greenhalgh ou Barroso, que são dois advogados muito simpáticos, não os chamem de “mavórticos” sem antes explicar qual é a fonte.
Estimulando os Traumas do Leitor
Um fato muito comum na Revista Carta Capital (que foi considerada durante muito tempo, por razões que desconheço, um veículo da centro-esquerda), é atribuir a Battisti, de maneira real o fingida, atos que impressionam negativamente ao leitor, que se sente amedrontado por ele.
Num dos maiores abismos da baixaria, um dos chefões da revista (não lembro qual de ambos) descreve um fato que não aparece em nenhum auto, e que nem a própria embaixada, com toda sua política suja, colocou em evidência: trata-se de aventuras sexuais da adolescência do escritor!
Outro caso, este muito mais grave, é estimular o medo ao terrorismo. Num operativo de incrível cinismo, uma combinação que envolvia um promotor, um alto oficial da polícia federal, e um juiz, se atribuiu a Battisti uma conexão com a Brigada Vermelha (em singular). Essa organização deve ser muito clandestina, pois ninguém ouviu falar nela, apenas da sua parente em plural. Só que as brigadas se dissolveram faz vários anos. Polícia, juiz e MP atribuem a Battisti propriedades mediúnicas, porque eles dizem que se comunica por computador com os brigadistas.
Pressionados pelo corajoso advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, um daqueles elementos reconheceu que não era nada grave, que houve uma confusão. Finalmente, outro se desculpou, e disse que levou isso a sério porque receberam denúncias da Embaixada Italiana.
Falácias Diversas
Existem falácias puramente formais (semelhantes a erros lógicos) e falácias de conteúdo. Falácia de conteúdo para gente grande, é uma que se encontra num trabalho de Carlos Veloso: http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=15883
“O Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Extradição 232-Cuba, [...] decidiu que “a concessão de asilo diplomático ou territorial não impede, só por si, extradição, cuja procedência é apreciada pelo STF [...]. Na Extradição 524-Paraguai, o Supremo Tribunal decidiu que “não há incompatibilidade absoluta entre o instituto do asilo político e o da extradição passiva”
O que sua excelência não diz, é que a extradição 232 é quase 30 anos anterior à lei 9474, e a ext. 524, cerca de 5 anos anterior. Nessa lei, se afirma claramente (art. 33) que a concessão de refúgio elimina qualquer processo de extradição. O ministro não deve pretender, supomos, que dois casos de jurisprudência são mais fortes do que uma lei… mesmo sendo alheio ao mundo do direito, tal conclusão me parece esquisita.
Aqui, muitos poderiam pensar que o ministro demonstrou astúcia (que é uma prima afastada e encrenqueira da inteligência). Mas, não foi bem assim. Qualquer pessoa com mínimo de curiosidade poderia ler os acórdãos dessas duas extradições no arquivo do Supremo, e mandar o escrito do ilustre ministro à lata de lixo, data venia, é claro.
Erros Lógicos
Os erros lógicos são muito freqüentes, porque, como disse acima, verdade, fatos concretos e raciocínios são alheios a um mundo onde vale: convicção suspeita e retórica. Mas encontrei um erro maravilhoso. Ele teria sido ótimo em minhas épocas de professor básico para dar como exercício aos alunos da 5ª. série.
O texto é novamente de Bialski (ibid, nota 1)
“É induvidosa a mencionada exigência de controle, pelo quanto dispõe o artigo 83 da Lei 68215/80 e do artigo 207 do Re­gimento Interno da Suprema Corte Federal: ”Não se concederá extradição sem prévio pronunciamento do Supremo Tribunal Federal sobre a legalidade e a pro­cedência do pedido, observada a legislação vigente” (grifo meu)
Neste caso, não cabe ser muito severo com o jurista, porque nas faculdades de direito os professores de lógica não são matemáticos nem lingüistas, mas, em geral, outros juristas. O erro que comete o autor não é de má fé. Qualquer professor sabe que ele deve acreditar nisso, mas um aluno da 5ª. série dos dias de hoje lhe mostraria onde está a charada.
Dizer “Não se concederá extradição sem prévio pronunciamento”, tem a forma lógica “Não haverá X, sem haver Y” e, portanto significa para que haja X, deve haver Y. Ou seja, Y (prévio pronunciamento) é condição necessária para X. Porém, não é suficiente, já que então teria a forma: “Se houver Y (pronunciamento prévio) então poderá haver X (extradição)”.
Quando uma condição é necessária e suficiente, diz-se: X se e somente se Y, ou coisa que o valha. Por exemplo: “Não haverá extradição sem prévio pronunciamento”, e, reciprocamente, “se houver pronunciamento (positivo) então haverá extradição (a extradição será obrigatória)”.
A lei diz, então, que, se uma pessoa for extraditada, será necessário que sua extradição seja aprovada (autorizada, permitida, etc.) pelo STF. Mas, não diz que: “Se o STF aprova a extradição, então, esta deverá ser realizada”.
A forma lógica de ambos os enunciados, fica bem evidenciada com estes dois exemplos:
“Não se financia a compra de carro Ferrari, sem que o candidato tenha ficha criminal limpa”
Então, um criminoso não pode financiar uma Ferrari. Deve ter ficha limpa para isso. Mas, será suficiente? Certamente não. A empresa deve exigir que você tenha um salário de vários milhares de reais e, além disso, algum avalista. Ou seja, não por você ter ficha limpa, vai conseguir financiamento para uma Ferrari, se você ganhar um salário mínimo.
Este erro trivial pode deixar de DP a um garoto de 12 anos num colégio decente, mas é cometido por pessoas que têm em suas mãos a vida e a liberdade das pessoas!
Esgotamento Mental
Este procedimento consiste em saturar o leitor com um argumento repetido infinitas vezes, até que se torne um automatismo de sua mente. É um equivalente simplório e vulgar daquele ditado de Goebbels, de que qualquer mentira podia ser incutida se for suficientemente “martelada” na mente dos outros. Obviamente, não estou dizendo que os que usam estes argumentos no caso Battisti sejam do nível de Goebbels. Independentemente do mal-estar que produz a imagem do famoso nazista, devemos reconhecer que sua inteligência não era medíocre: foi uma pena que não a usasse para uma finalidade nobre.
No caso de Battisti, o argumento “esmaga cabeça” é o de sempre:
E, aí… e os boxeadores cubanos?
Aqui não preciso mencionar ninguém, porque este argumento foi usado mais de 1000 vezes, pelas figuras mais diversas: linchadores que escrevem comentários em jornais, apresentadores de TV, parlamentares do DEM, advogados de porta de cadeia, etc..
Eu também pergunto: e aí? Porque nunca foi provado, que eu saiba, que os boxeadores realmente queriam refúgio. Os que dizem que o governo não deseja desagradar a Fidel Castro estão no porão da inteligência biológica. Como explicam, então, que mais de 100 cubanos estejam refugiados no Brasil, incluindo outros atletas olímpicos? O será que Fidel só gosta de boxeadores, todos os outros podem ir embora?
Se eles pediram refúgio e foi negado, obviamente foi uma grave falência do governo e deve ser criticado por isso. Entretanto, nenhum deles, que eu saiba, estava ameaçado de morrer linchado numa cela sem luz.
Conclusão
Não sou das pessoas que odeiam seus inimigos. Pelo contrário, acho que muito de meus inimigos são meus grandes marketeiros. Saber que eles me odeiam me faz sentir que estou no caminho certo.
Tampouco tenho nada pessoal contra a direita. Um dos acusadores do sangrento tirano Pinochet, quando ficou retido em Londres, e depois liberado pela politicagem internacional, era um lord, membro do Partido Conservador. Creio que existe uma diferença conceitual definível entre direita e esquerda, mas como toda divisão de propriedades contínuas possui áreas difusas.
O que me deixa mais abismado no caso de Battisti, é o fato de não ter encontrado nem uma pessoa de certo valor humano entre seus inimigos. Há um jornalista que respeito e que é favorável a extradição, mas não parece ter nenhum ódio especial, nem faz disso sua militância. Acredito quê seja uma seqüela do confronto entre setores políticos dos anos 70.
Mas, fora disso, me deprime que todos os que eu tenho lido (deve haver outros que não conheço) são pessoas rançosas, pensamentos tacanhos e medíocres, sádicos frustrados, mentes servis e rotineiras, puxadores de saco das grandes empresas, partidos ou meios de comunicação, propagadores das mentiras mais brutas com a maior naturalidade, e órfãos de qualquer informação séria.
Poderia falar do outro lado, mas isso fica para outro momento. Além do mais nobre e honesto do Parlamento, estão de nosso lado os melhores juristas brasileiros, os quatro ministros que sustentam a honra da justiça brasileira, os jornalistas mais verazes e corajosos, as pessoas da rua que arriscam muito, porque ninguém sabe como se fará sentir a retaliação daquele mundo regido pela máfia, a igreja, o fascismo, e as organizações secretas.

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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Lula

O que uma menina de 15 anos pensa do Lula, do PT e da grande mídia… Essa é para começar o ano com esperança!
Publicado em 03/01/2010 por Ana Helena Tavares

Presidente Lula

Por Carolina Matos Leandro*, da Juventude do PT, em seu blog dedicado à política

Para aqueles adultos, que criticam o presidente Lula, ou que se dizem Anti-petistas, ou para aqueles jovens, que ainda não sabem muito da política, mas dizem que sabe, só por influência da mídia.

Olá. Pessoal, meu nome é Carol, e eu tenho 15 anos. Sim,ainda sou nova. Mas acreditem, isso não é um problema!

Vim aqui, explicar umas coisas, sobre a política que tenho certeza de que muitos adultos e jovens ainda não sabem.

O partido do Lula é o PT, certo? Então, logo o PT é da esquerda certo? Então vamos lá, pra quem não sabe:

Há muito tempo atrás a política foi dividia em esquerda, e direita. O partido da esquerda é dos os pobres, e o da direita é dos ricos. E sim, não ERA, mas É. E hoje, o partido da esquerda, inclui o PT, o PSB, o PCdoB. E o da direita, o PSDB, o PP, e o DEM. Os do centro, que são de vez em quando esquerda, e de vez em quando direita, são : PMDB (que é mais esquerda), PR(que é mais direita), e outros que não lembro agora. Tem os da extrema esquerda, que é o PSOL e o PSTU (acho que é só esses ,não tenho certeza se lembrei de todos agora).

Pois então, os partidos da DIREITA, e centro que acompanham mais a direita então vão defender, e apoiar a quem? OS RICOS, certo? Então, os partidos da ESQUERDA, e EXTREMA ESQUERDA,vão defender,e apoiar a quem? Os POBRES, certo?

Então digam-me uma coisa.. Mas porque vocês, vários adultos que conheço, que são de classe baixa e classe média, ficam aí defendendo os partidos de direita,mandando e-mail falando mal e mais mal do Lula, sendo que ele, foi o presidente do Brasil, que abaixou tanto o índice de pobreza no Brasil? E mesmos os ricos, que já têm tanto dinheiro, qual é o motivo de o criticarem? O que estou querendo dizer é,os pobres que precisam de maior atenção, pois são eles que trabalham duro pra ganhar tão pouco,são eles que passam fome, que não têm dinheiro suficiente para dar um almoço digno aos seus filhos. Porque quando o Lula falou, que essa crise aqui no Brasil é uma marolinha, ficaram achando tão ruim? Agora que sabem, que realmente foi uma marolinha, o que têm a dizer? Para os donos de empresas,indústrias, isso não afetou em nada. Mas eles não esperaram a hora de ter uma desculpinha para falar e de repente despedir vários empregados, só pra terem mais lucros, mais ainda do que têm. Lula não mentiu nem um pouco ao falar isso. E por que quando estão numa estrada ruim, esburacada que faz parte da federal, só criticam o Lula, sendo que nem pensam no desvio, que o governo ou o prefeito da cidade, pode muito bem ter feito? E por que ficam vendo tanto a globo, e acreditando em tantas reviradas que fazem contra o Lula, sendo que os donos da Globo são ricos, e como expliquei, os ricos criticam os partidos de esquerda, principalmente o PT, justo porque o governo PT é de esquerda, e está forte?

Pensem nisso!

*Obs: Carolina havia mandado este mesmo texto em versão reduzida para o fórum de comentários da aba superior “Brasil” deste blog “Quem tem medo do Lula?” em 26 de Junho de 2009. Como hoje, 03 de Janeiro de 2009, ela honrou-nos novamente com sua presença lá, dando o link do texto no blog dela, resolvi então reproduzir como postagem, pois vale a leitura.

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Arquivado em: Brasil, PIG, Política | Etiquetado: Juventude, lula, PT |

Battisti

Os “argumentos” contra Battisti
Por Carlos Lungarzo em 04/01/2010
Anistia Internacional

Há uma tendência na esquerda, e entre os partidários de tendências iluministas, humanistas e libertárias em geral a identificar a qualidade ética de uma pessoa com sua inteligência, agudeza e informação. Isto parece uma adesão à antiga identidade entre o bem e a razão ou, em termos mais modernos, entre o espírito humanitário e altruísta e a capacidade de argumentação.
Esta identificação está presente nos filósofos gregos, especialmente em Platão, mas também nos hedonistas e nos epicúreos, atravessa a obra de Descartes, vira um assunto central nos cientistas pós-newtonianos, e se torna quase um dogma para a geração Iluminista do século 18. Este intelectualismo está presente nas cartas trocadas por Marx e Engels, que não ocultavam seu desprezo pelos raciocínios grosseiros das elites, pela ignorância de nobres, militares e burocratas e pela barbárie cultural da direita. Inclusive, apesar de sua injusta desconfiança do anarquismo, Marx emocionou-se até chorar ao lembrar o talento de Bakunin, durante o funeral deste em 02/09/1853. (Marx-Engels-Werke, V. 12, p. 284).
Outro fato que reafirma, pela negativa, a relação entre ética e inteligência, é que, durante o forte misticismo ocidental (sec. 4º ao 16º) quando o ser humano foi mais humilhado, ao mesmo tempo a ciência e o conhecimento crítico desapareceram até Galileu.
Entretanto, não é possível tomar a relação moral/inteligência como uma verdade absoluta. Isso criaria uma hierarquia moral das pessoas em função de suas capacidades, o que é uma visão reacionária do mundo. Lembremos, além disso, que simpatizantes do nazismo, como Max Plank e Heisenberg, foram mentes brilhantes em suas especialidade e que Enrico Fermi foi um homem muito inteligente, apesar de ter contribuído a criar a primeira bomba nuclear.
Em minha opinião, a relação precisa entre inteligência e ética é difícil de especificar e talvez precisemos muitas décadas de psicologia para conhece-la num 50%, se tanto. Entretanto, é evidente uma conexão estreita entre ambas, como o mostram os exemplos: é quase impossível encontrar um ditador inteligente, um genocida com algum talento universal, um racista com alguma compreensão do mundo, uma pessoa preconceituosa que impressione por sua racionalidade. Existem muitos casos de pessoas sem escrúpulos com grandes destrezas específicas, mas é difícil encontrar algumas dotadas de inteligência ampla.
Por que toda esta reflexão? Há um ano que, por causa da concessão de seu refúgio/asilo, Cesare Battisti virou conhecido e a opinião pública se dividiu entre os que pediam sua liberdade e os que exigiam sua deportação. Durante este ano, li o equivalente a dúzias de milhares de páginas de jornais, revistas e documentos, e fiquei estarrecido ao fazer uma comprovação:
Nenhum dos argumentos contra Battisti demonstrava a mínima racionalidade, o menor uso de pensamento ou sensibilidade. Como disse antes, não acho que uma cognição apurada implique necessariamente grande estatura moral, nem vice-versa, mas fiquei apavorado pela relação evidente entre pensamento brutal e grosseiro com ódio pelo refugiado.
Acredito, sim, que existam pessoas autocentradas, sem interesse no próximo, que possuam uma visão do mundo bastante ampla. Um destes casos era Leonardo da Vinci, considerado por seus biógrafos mais atuais como egoísta e violento.
Entretanto, as coisas mudam quando aparece um componente de ódio, uma espécie de fanatismo contra tudo o que é diferente, como o que caracteriza o machismo, o racismo, a xenofobia, o imperialismo, o linchamento e todos os sentimentos de direita em geral. Nesses casos, ou a inteligência não é suficiente para evitar a contaminação pelo ódio, ou então, a prevalência do ódio faz aparecer a inteligência como difusa, esvaída, quase inexistente.
Não quero dizer que alguém que sustenta uma posição não-humanitária possua, necessariamente, um entendimento tacanho, embora isso quase sempre acontece. Tenho uma experiência interessante sobre isso. Conheci a Ayres Britto depois de ele ter votado pela extradição, e me surpreendi ao compara-lo com os outros quatro juízes que votaram no mesmo sentido (com os que, afortunadamente, não devi conversar). Britto é um homem cordial, desprovido da empáfia jurídica, um temperamento simples: escreve poesia e gosta de Chico Buarque. Sabe conversar sobre coisas que não estão nos códigos. Aliás, ele não tinha nenhum ódio contra Battisti. Se eu entendi bem, ele achou que não havia motivos para negar a extradição, assim de simples. Se Itália o pedia, saberia por que. Não era submissão à autoridade, apenas rotina. Se alguém morria por isso, não era seu assunto.
Ele não estava contente por entregar uma vítima aos La Russa e os d’Alema da vida. Simplesmente, fez o que parecia mais linear. Afinal, a justiça formal é isso. Então, percebi que era uma pessoa inteligente que não camuflava seus pensamentos: justiça formal nada tem a ver com verdade ou humanismo; é um trabalho.
Mas, não quero referir-me aos que apenas “votariam” contra Battisti, mas aos que estão engajados na causa de triturar uma pessoa para eles desconhecida, que lês estorva por vários motivos:
(1) Porque representa a esquerda. (2) Porque desafia sem temor o terrorismo de estado. (3) Porque não se ajoelha. (4) Porque é uma mente criativa. (5) Porque têm amigos de uma qualidade que seus inimigos nunca reuniriam nem em várias reencarnações. A maior atriz européia dos anos 50, Jeanne Moreau, o Nobel de Literatura Garcia Marques, a talvez maior romancista de enredos policiais das últimas décadas, Fred Vargas, grandes advogados, líderes políticos franceses, e também os melhores amigos brasileiros: Suplicy, José Nery, Luiz Couto e outros.
Essas pessoas que odeiam Battisti não conseguem produzir um argumento bom. Foi por isso que decidi classificar os “argumentos” contra Battisti em várias espécies. Acredito, porém, que esta é uma obra para toda uma equipe e quaisquer enriquecimentos a meu trabalho (muito pretensioso para uma vida só) serão bem-vindos.
Observação: Não gosto de entrar em polêmicas. Se você defende honestamente, de maneira errada ou certa, uma causa, o pior que pode fazer é tornar sua causa um espetáculo de circo. Por isso também não gosto citar ninguém, salvo fontes de mérito que menciono como prova. Neste caso deve ser diferente, mas apenas menciono os autores para que o leitor, se quiser, possa encontrar o assunto mencionado.
A Crítica Através do Elogio
Em alguns casos, o crítico (ou crítica) acha mais confortável elogiar a alguém que ataca Battisti, do que ele próprio fazer sua argumentação. No caso de pessoas ligadas ao direito, uma maneira habitual é tecer uma série mirabolante de elogios a qualquer frase trivial que tenha dito um magistrado inimigo do escritor italiano.
É o caso, entre milhares de outros, do senhor Daniel Bialski, num trabalho intitulado Interesse em Extradição de Battisti é incomum, que me pareceu o mais paradigmático pela bizarrice e servilismo de seus elogios.
http://br.groups.yahoo.com/group/niem_rj/message/5573
“O que se teria visto, na visão do eminente e futuro presidente da Corte Suprema, ministro Peluso, [...] que é atribuição exclusiva da Excelsa Corte.” (Grifos meus)
Existem muitos outros casos que não merecem ser citados, porque não são tão grotescos, mas em todos eles se elogia cafonamente, seja o magistrado, seja a “obra da sua lavra” (ou seja, o escrito de sua autoria). Dessa maneira, se dá um tiro por elevação contra Battisti, usando munição alheia.
Este fenômeno faz parte de um fetichismo, pelo qual se transformam em reais, e até em antropomórficas, entidades que são puras abstrações conceituais. Por exemplo, se elogia a cultura italiana, como se toda Itália fosse um organismo homogêneo que atua sempre da mesma maneira, ou se atribui sacralidade a simples funções profissionais de uma pessoa, por exemplo: “o sábio julgador”.
Comparações Sinistras
Às vezes, para descompor Battisti, os autores usam comparações que são simplesmente repugnantes. É o caso de Alon Feuerwerker, em Diversos pesos, diversas medidas, cuja matéria começa assim:
http://br.groups.yahoo.com/group/niem_rj/message/5573
“A operação política para salvar Battisti decorre de ele ter origem na esquerda. Fosse um militar argentino condenado por crimes na ditadura, estariam os mesmos exigindo, já, sua extradição para Buenos Aires.”
Essa comparação não mede só o nível ético do autor, mas também o cognitivo. Alguém que compara um acusado qualquer (mesmo se fosse o pior criminal comum do mundo, mesmo se fosse o atual chefe de Al-Qaida), com genocidas patológicos e torturadores insanos do exército argentino, demonstra pouca fineza cognitiva. A maioria dos que concedem algum valor aos genocidas argentinos, chilenos ou brasileiros (ao ponto de comparar-los com outras pessoas), costumam ter a esperteza de ocultar suas intenções.
Uma pessoa melhor dotada teria dito: “fosse um fascista…” Aliás, estaria perto da realidade, porque há um fascista italiano que seu governo “simula” querer extraditar. Aliás, para dar palpite num assunto que parece ser sobre direito, o autor conhece pouco: parece que não sabe que “crimes de lesa humanidade” são uma espécie diferente dos políticos e dos comuns.
A posição dos defensores de DH é que, se o fascista não cometeu crimes contra humanidade, deve receber a mesma proteção que Battisti, caso que realmente a Itália o quisesse extraditar, o que parece ridículo.
A Linguagem Injuriosa
Um terrorista, por definição, é uma pessoa que pratica terrorismo. É difícil que alguém que esteja fechado numa prisão durante o dia todo pratique terrorismo. Entretanto, a Folha de S. Paulo chama Battisti de terrorista desde que caiu preso. Um amigo meu mando uma carta à Folha e, como jornal aberto e respeitoso da liberdade de imprensa, substituiu “terrorista” por “ex-terrorista” por algumas semanas. (Posteriormente, voltou a usar terrorista, que causa mais impacto).
Além disso, terrorismo é um termo definido numa comunicação das Nações Unidas que, apesar de não estar aprovada por todos os membros, tem ampla credibilidade. Mas, se os jornalistas querem usar uma definição vernácula, podem ler a ementa de Extradição de novembro de 1989 (República Argentina contra Fernando Falco; denegada), onde o relator Sepúlveda Pertence diz claramente, que uma ação violenta só pode ser chamada terrorista “se utiliza armas de perigo comum (como explosivos ou canhões) e coloca massivamente em perigo a população civil”.
Se Battisti tivesse matado essas 4 pessoas, ou ainda, 40 pessoas, uma por uma e usando uma pistola, seria um assassino, mas ainda assim não seria um terrorista.
O Critério de Autoridade
Isto é muito comum no Direito, na vida comum, e em qualquer atividade não científica. Aliás, é típico das crenças políticas fanáticas, as religiosas e as morais, que não tenham base no direito natural. Entretanto, no caso Battisti o abuso aberrante e servil do critério de autoridade chegou às alturas.
Quando o senador Suplicy, num de seus típicos atos se simplicidade, humanidade e grandeza, levou ao Senado um documento redigido pela romancista Fred Vargas, alguns dos gênios togados foram tocados pela histeria. Como era isso possível: “alguém de fora” (que não é juiz, nem mesmo advogado) vai lançar no rosto do relator todas as infâmias cometidas.
De fato, os que assim chiaram eram coerentes. A justiça não é uma coisa pública: é propriedade privada de uma sociedade secreta que decide a contramão da verdade, da lógica e do bom senso, segundo sua conveniência profissional ou… de outro tipo. Esse documento continha 13 perguntas magnificamente colocadas, com impecável referência às fontes, onde a escritora descrevia as fraudes, distorções e omissões dolosas feitas no relatório. Por sinal, a carta de Fred estava redigida num estilo educado, porém respeitoso demais para o que merecem jogadores de cartas marcadas.
Veja o link: http://cesarelivre.org/node/143
Agora, um caso geral: a aceitação de todos os linchadores de que Battisti realmente matou 4 pessoas. Isto não é apenas uma crendice da massa desinformada, mas também uma forma de legalizar uma mentira. Qual é a vantagem? É a de ter um bode expiatório. Todos os que conhecem as religiões monoteístas (a imensa maioria do país) sabem o que isso significa. É alguém para destruir, como a Geni da música de Chico Buarque.
Obviamente, a mesma lei justifica esta aberração. A pessoa pode ser extraditada sem verificar se teve o devido processo. Basta que tenham todos carimbos necessários. Hoje, é óbvio que os crimes atribuídos a Battisti não estão provados por evidências tangíveis, que não há testemunhas que não sejam falsas ou compradas, que não houve advogados e, ainda, que os autores dos quatro assassinatos estão perfeitamente identificados.
Se as pessoas que escrevem em jornais, blogs, etc., que Battisti matou quatro pessoas, afirmassem, com as mesmas provas, que João da Silva deu um cheque sem fundo, seriam imediatamente processados por calúnia.
Finalmente, um caso exacerbado de servilismo com a autoridade, que chega a negar a mesma realidade: é a refutação que o Relator do Caso Battisti faz do terrorismo de estado na Itália descrito, de maneira exageradamente tênue e light por Tarso Genro.
Qualquer pessoa informada, mesmo muito jovem (há muitos exemplos em quase adolescentes que escrevem blogs maravilhosos) sabe que entre 1969 e 1981, houve na Itália um enorme número de atentados a bomba em locais públicos, com milhares de civis mutilados, incluindo crianças e mulheres, e centenas de mortos. Quando o relator escreve isso em seu tóxico libelo, leva o assunto na brincadeira. Numa linguagem muito mais austera, como cabe ao bom juridiquês, disse coisas como estas.
“Vamos, seu Tarso. Não venha com manhas. Essa história de terrorismo fascista, sim, eu também ouvi falar, mas não houve nenhuma condena. Chega de brincadeira”.
Uso de Linguagem Hermética
O recurso ao juridiquês é um dos truques preferidos para que nada se entenda. Seu uso é tão perverso que, ás vezes, nem os mesmos colegas de aqueles que o usam conseguem entender se seu cúmplice diz A, ou disse não A. Em parte, isto provocou várias confusões no STF, especialmente quando o famigerado julgamento das “células tronco”.
O relatório sobre Battisti está contaminado por juridiquês de alerta vermelho, entremeado ainda por versões bilíngües de textos (sic) e outros elementos confusionais. Entretanto, prefiro citar um texto desconhecido onde se usa um termo em juridiquês que é hermético até pelos leguleios mais rançosos. É sempre falando em Battisti:
“A Suprema Corte, então, rejeitou os argumentos da mavórtica defesa do extraditando e deferiu o pedido do governo italiano, fazendo o controle da legalidade necessário, fundamentando-a.”
Bialski, Interesse (mesmo link).
Você sabe o que é mavórtica? Nem eu. Procurei no Google, um buscador que traz milhões de entradas para qualquer termo, mesmo que seja em tamil ou húngaro, mas aqui só tinha 91. A maioria eram perguntas desesperadas (de quem?) pedindo ajuda sobre o significado da palavrinha. Por aí, apareceu alguém que explicou que “mavórtica” é feminino de “mavórtico”, que deriva de Marte, o Deus da Guerra. Então, no contexto de nosso erudito, a defesa dos advogados de Battisti era guerreira ou belicosa. Cuidado. Se vocês conhecem a Greenhalgh ou Barroso, que são dois advogados muito simpáticos, não os chamem de “mavórticos” sem antes explicar qual é a fonte.
Estimulando os Traumas do Leitor
Um fato muito comum na Revista Carta Capital (que foi considerada durante muito tempo, por razões que desconheço, um veículo da centro-esquerda), é atribuir a Battisti, de maneira real o fingida, atos que impressionam negativamente ao leitor, que se sente amedrontado por ele.
Num dos maiores abismos da baixaria, um dos chefões da revista (não lembro qual de ambos) descreve um fato que não aparece em nenhum auto, e que nem a própria embaixada, com toda sua política suja, colocou em evidência: trata-se de aventuras sexuais da adolescência do escritor!
Outro caso, este muito mais grave, é estimular o medo ao terrorismo. Num operativo de incrível cinismo, uma combinação que envolvia um promotor, um alto oficial da polícia federal, e um juiz, se atribuiu a Battisti uma conexão com a Brigada Vermelha (em singular). Essa organização deve ser muito clandestina, pois ninguém ouviu falar nela, apenas da sua parente em plural. Só que as brigadas se dissolveram faz vários anos. Polícia, juiz e MP atribuem a Battisti propriedades mediúnicas, porque eles dizem que se comunica por computador com os brigadistas.
Pressionados pelo corajoso advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, um daqueles elementos reconheceu que não era nada grave, que houve uma confusão. Finalmente, outro se desculpou, e disse que levou isso a sério porque receberam denúncias da Embaixada Italiana.
Falácias Diversas
Existem falácias puramente formais (semelhantes a erros lógicos) e falácias de conteúdo. Falácia de conteúdo para gente grande, é uma que se encontra num trabalho de Carlos Veloso: http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=15883
“O Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Extradição 232-Cuba, [...] decidiu que “a concessão de asilo diplomático ou territorial não impede, só por si, extradição, cuja procedência é apreciada pelo STF [...]. Na Extradição 524-Paraguai, o Supremo Tribunal decidiu que “não há incompatibilidade absoluta entre o instituto do asilo político e o da extradição passiva”
O que sua excelência não diz, é que a extradição 232 é quase 30 anos anterior à lei 9474, e a ext. 524, cerca de 5 anos anterior. Nessa lei, se afirma claramente (art. 33) que a concessão de refúgio elimina qualquer processo de extradição. O ministro não deve pretender, supomos, que dois casos de jurisprudência são mais fortes do que uma lei… mesmo sendo alheio ao mundo do direito, tal conclusão me parece esquisita.
Aqui, muitos poderiam pensar que o ministro demonstrou astúcia (que é uma prima afastada e encrenqueira da inteligência). Mas, não foi bem assim. Qualquer pessoa com mínimo de curiosidade poderia ler os acórdãos dessas duas extradições no arquivo do Supremo, e mandar o escrito do ilustre ministro à lata de lixo, data venia, é claro.
Erros Lógicos
Os erros lógicos são muito freqüentes, porque, como disse acima, verdade, fatos concretos e raciocínios são alheios a um mundo onde vale: convicção suspeita e retórica. Mas encontrei um erro maravilhoso. Ele teria sido ótimo em minhas épocas de professor básico para dar como exercício aos alunos da 5ª. série.
O texto é novamente de Bialski (ibid, nota 1)
“É induvidosa a mencionada exigência de controle, pelo quanto dispõe o artigo 83 da Lei 68215/80 e do artigo 207 do Re­gimento Interno da Suprema Corte Federal: ”Não se concederá extradição sem prévio pronunciamento do Supremo Tribunal Federal sobre a legalidade e a pro­cedência do pedido, observada a legislação vigente” (grifo meu)
Neste caso, não cabe ser muito severo com o jurista, porque nas faculdades de direito os professores de lógica não são matemáticos nem lingüistas, mas, em geral, outros juristas. O erro que comete o autor não é de má fé. Qualquer professor sabe que ele deve acreditar nisso, mas um aluno da 5ª. série dos dias de hoje lhe mostraria onde está a charada.
Dizer “Não se concederá extradição sem prévio pronunciamento”, tem a forma lógica “Não haverá X, sem haver Y” e, portanto significa para que haja X, deve haver Y. Ou seja, Y (prévio pronunciamento) é condição necessária para X. Porém, não é suficiente, já que então teria a forma: “Se houver Y (pronunciamento prévio) então poderá haver X (extradição)”.
Quando uma condição é necessária e suficiente, diz-se: X se e somente se Y, ou coisa que o valha. Por exemplo: “Não haverá extradição sem prévio pronunciamento”, e, reciprocamente, “se houver pronunciamento (positivo) então haverá extradição (a extradição será obrigatória)”.
A lei diz, então, que, se uma pessoa for extraditada, será necessário que sua extradição seja aprovada (autorizada, permitida, etc.) pelo STF. Mas, não diz que: “Se o STF aprova a extradição, então, esta deverá ser realizada”.
A forma lógica de ambos os enunciados, fica bem evidenciada com estes dois exemplos:
“Não se financia a compra de carro Ferrari, sem que o candidato tenha ficha criminal limpa”
Então, um criminoso não pode financiar uma Ferrari. Deve ter ficha limpa para isso. Mas, será suficiente? Certamente não. A empresa deve exigir que você tenha um salário de vários milhares de reais e, além disso, algum avalista. Ou seja, não por você ter ficha limpa, vai conseguir financiamento para uma Ferrari, se você ganhar um salário mínimo.
Este erro trivial pode deixar de DP a um garoto de 12 anos num colégio decente, mas é cometido por pessoas que têm em suas mãos a vida e a liberdade das pessoas!
Esgotamento Mental
Este procedimento consiste em saturar o leitor com um argumento repetido infinitas vezes, até que se torne um automatismo de sua mente. É um equivalente simplório e vulgar daquele ditado de Goebbels, de que qualquer mentira podia ser incutida se for suficientemente “martelada” na mente dos outros. Obviamente, não estou dizendo que os que usam estes argumentos no caso Battisti sejam do nível de Goebbels. Independentemente do mal-estar que produz a imagem do famoso nazista, devemos reconhecer que sua inteligência não era medíocre: foi uma pena que não a usasse para uma finalidade nobre.
No caso de Battisti, o argumento “esmaga cabeça” é o de sempre:
E, aí… e os boxeadores cubanos?
Aqui não preciso mencionar ninguém, porque este argumento foi usado mais de 1000 vezes, pelas figuras mais diversas: linchadores que escrevem comentários em jornais, apresentadores de TV, parlamentares do DEM, advogados de porta de cadeia, etc..
Eu também pergunto: e aí? Porque nunca foi provado, que eu saiba, que os boxeadores realmente queriam refúgio. Os que dizem que o governo não deseja desagradar a Fidel Castro estão no porão da inteligência biológica. Como explicam, então, que mais de 100 cubanos estejam refugiados no Brasil, incluindo outros atletas olímpicos? O será que Fidel só gosta de boxeadores, todos os outros podem ir embora?
Se eles pediram refúgio e foi negado, obviamente foi uma grave falência do governo e deve ser criticado por isso. Entretanto, nenhum deles, que eu saiba, estava ameaçado de morrer linchado numa cela sem luz.
Conclusão
Não sou das pessoas que odeiam seus inimigos. Pelo contrário, acho que muito de meus inimigos são meus grandes marketeiros. Saber que eles me odeiam me faz sentir que estou no caminho certo.
Tampouco tenho nada pessoal contra a direita. Um dos acusadores do sangrento tirano Pinochet, quando ficou retido em Londres, e depois liberado pela politicagem internacional, era um lord, membro do Partido Conservador. Creio que existe uma diferença conceitual definível entre direita e esquerda, mas como toda divisão de propriedades contínuas possui áreas difusas.
O que me deixa mais abismado no caso de Battisti, é o fato de não ter encontrado nem uma pessoa de certo valor humano entre seus inimigos. Há um jornalista que respeito e que é favorável a extradição, mas não parece ter nenhum ódio especial, nem faz disso sua militância. Acredito quê seja uma seqüela do confronto entre setores políticos dos anos 70.
Mas, fora disso, me deprime que todos os que eu tenho lido (deve haver outros que não conheço) são pessoas rançosas, pensamentos tacanhos e medíocres, sádicos frustrados, mentes servis e rotineiras, puxadores de saco das grandes empresas, partidos ou meios de comunicação, propagadores das mentiras mais brutas com a maior naturalidade, e órfãos de qualquer informação séria.
Poderia falar do outro lado, mas isso fica para outro momento. Além do mais nobre e honesto do Parlamento, estão de nosso lado os melhores juristas brasileiros, os quatro ministros que sustentam a honra da justiça brasileira, os jornalistas mais verazes e corajosos, as pessoas da rua que arriscam muito, porque ninguém sabe como se fará sentir a retaliação daquele mundo regido pela máfia, a igreja, o fascismo, e as organizações secretas.

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Che

Che Pueblo
Escrito por Celso Lungaretti
31-Mar-2009

"El nombre del hombre muerto ya no se puede decirlo, quién sabe?
Antes que o dia arrebente, antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto, antes que a definitiva noite se espalhe em Latinoamérica
El nombre del hombre es Pueblo, el nombre del hombre es Pueblo"
("Soy Loco Por Ti America", Capinan, Gil e Torquato)

Che, de Steven Soderbergh, consegue um prodígio, em termos de grandes produções estadunidenses enfocando personagens revolucionários: é um filme honesto.

Claro que, precavendo-se contra as inevitáveis críticas dos direitistas, Soderbergh e o roteirista Peter Buchman evitaram manifestar simpatia ostensiva pela causa revolucionária, limitando-se a colocar na tela os episódios narrados nos diários de Che Guevara.

Então, os aspectos políticos, como o relacionamento entre a guerrilha e a oposição desarmada, são tratados de forma muito superficial, enquanto as cenas de batalhas tomam tempo demais do filme.

Um cineasta do ramo, como Costa-Gravas, certamente aprofundaria mais os personagens e situações, ao invés de ficar no meramente descritivo. Só que Hollywood jamais bancaria um filme sobre Guevara que tivesse Costa-Gravas como diretor...
Justiça seja feita: o atual Che é extremamente mais digno do que o Che! de 1969, dirigido por Richard Fleischer, com Omar Shariff no papel principal. Caricaturas e preconceitos desta vez ficaram de fora. A guerra fria acabou, felizmente.

Chamou-me a atenção o tratamento respeitoso que Fidel Castro (interpretado pelo bom ator mexicano Demián Bichir) recebe. Ele é mostrado como líder inconteste da revolução: ao mesmo tempo o visionário que apostou numa possibilidade remotíssima de vitória, o carismático que soube contagiar os outros com seu sonho e o pragmático que tomou quase sempre as decisões corretas ao longo da campanha.

Benicio Del Toro, obviamente, é quem sustenta o filme.

A opção foi abarcar, nesta primeira parte do épico - há uma segunda, Che - A Guerrilha, que ainda não tem estréia marcada no Brasil -, o período que vai do primeiro encontro entre Che e Fidel (1955) até a derrubada do ditador Fulgencio Batista (1959); afora isto, só existe um pequeno salto para o futuro, o pronunciamento de Guevara na ONU (1964).

Nesses quatro anos de que se ocupa o filme, o idealismo e a capacidade de enternecer-se de Guevara não se ressalta tanto nas situações propriamente ditas, como nos Diários de Motocicleta, de Walter Salles.

Aqui e ali, o roteiro cumpre esse papel, como ao mostrar Guevara fragilizado ao sofrer ataques de asma, compassivo no trato com os camponeses e solidário com um novato a ponto alfabetizá-lo nos intervalos das batalhas e caminhadas.

E há também a bela frase dos diários do Che, sobre o amor que move os revolucionários.

Mesmo assim, dependia em muito do ator passar ou não para os espectadores a humanidade de um herói que não foi um homem de ferro e, muito menos, o sanguinário em que parte da mídia o quer hoje transformar.

Benício conseguiu, oferecendo-nos um verdadeiro tour de force interpretativo. Seu Che é mesmo um idealista obrigado a endurecer-se para cumprir seu papel histórico, mas que não perde a ternura jamais.

Enfim, o cinema ainda continua nos devendo um filme definitivo sobre a revolução cubana. Mas, tenho a impressão de que este Che é o máximo que podemos esperar de Hollywood.

E vale para estimular o interesse das novas gerações por um dos personagens mais emblemáticos do século passado.

Culto Perene

É claro que muitos jovens, antes desse filme, já viam Guevara como o próprio símbolo da revolução.

Enquanto Marx, Lênin, Stalin, Trotsky, Mao e o próprio Fidel só significam algo para os politizados, o Che tem uma força simbólica indiscutivelmente maior - e muito mais adeptos na faixa da adolescência e mocidade.

Quais os motivos de culto tão perene?

Há quem o atribua, depreciativamente, à semelhança visual entre o Che abatido e o Cristo crucificado, omitindo que as trajetórias também são semelhantes.

Ambos desdenharam os bens materiais e foram solidarizar-se com os pobres, oferecendo-lhes apoio e esperanças. Despertaram a fúria dos poderosos de seu tempo e foram por eles destruídos, terminando sua jornada com muito sofrimento.

Evidentemente, os relatos que chegaram até nós sobre Jesus Cristo não têm áreas nebulosas como aqueles episódios em que Guevara parece haver incorrido em violência excessiva.

Mas, se o Salvador disse que não vinha "trazer a paz, mas a espada", foi Guevara quem a empunhou. E a guerra nunca inspirou os melhores sentimentos ao ser humano. Pelo contrário, desperta seus piores instintos.

Então, a luta justificada e necessária contra o tirano Fulgêncio Batista pode ter feito aflorar o Robespierre latente naquele homem afável, tão bem retratado nos Diários de Motocicleta.

Mas contradições são inerentes a todo ser humano. Não existe o herói perfeito e impoluto, salvo em nossa imaginação.

O certo é que Guevara continuou sacrificando tudo por seu ideal de justiça social. Como Garibaldi, foi levar a chama da revolução a outro mundo, a África. E tentou outra vez na Bolívia, onde finalmente o Império o fez executar (mais um paralelo com Cristo!).

Sua vida só foi uma sucessão de fracassos (como já se alegou) para quem reduz a existência à busca do sucesso fácil, descartando valores como a solidariedade, a coerência e a dignidade.

Os que o recriminam, certamente jamais agiriam como Guevara, abrindo mão do poder e honrarias para efetuar desesperadas tentativas de romper o isolamento da revolução cubana.

Pode-se supor que, como Trotsky, ele tenha concluído que a revolução invariavelmente se deforma quando fica restrita a um só país – ainda mais uma nação pobre, atrasada e asfixiada pelo embargo comercial, como Cuba. E fez o que poucos fariam: assumiu a missão de encontrar uma saída para o impasse, nas condições mais desfavoráveis.

No mundo todo, os jovens que também lutavam contra o Império se identificaram com seus sonhos e seu martírio. Não foram uma foto e um pôster que o transformaram em mito, mas sim esse exemplo de dedicação a uma causa justa até o sacrifício extremo.

E, como os corações mais sensíveis e as mentes mais lúcidas não conseguiram vencer o sistema regido pela desigualdade e ganância, Che inspira até hoje os que não aceitam o capitalismo globalizado como o fim da História.

Daí a inutilidade dos freqüentes ataques à memória do homem Ernesto Guevara - como os lançados pela mídia reacionária, a Veja à frente, quando do 40º aniversário da morte do herói.

Jamais atingirão, contudo, o mito Che Pueblo, personificação dos ideais igualitários que os melhores seres humanos vêm acalentando através dos tempos.

Celso Lungartti, jornalista, escritor e ex-preso político, mantém os blogs http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/ e http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/

Fidel

Fidel e o veredicto da história
Escrito por Atílio Boron
25-Mar-2009

Na primeira parte desta matéria, dizíamos que Fidel está canalizando todas as suas energias na estratégica "batalha das idéias", condição necessária para a construção de uma alternativa pós-capitalista e não somente pós-neoliberal, como anseiam alguns antigos esquerdistas desiludidos. À medida que sobreviva o capitalismo como modo de produção, sua natureza exploratória, opressiva e predatória se manifestará em todas as suas expressões históricas, desde o laissez faire do início do século 20 ao neoliberalismo de finais do mesmo século, passando pelo keynesianismo e o desenvolvimentismo. A preocupação do Comandante em reler Gramsci e os clássicos da teoria marxista é acompanhada por um renovado interesse na obra de Darwin e o estudo do impacto da nanotecnologia sobre os processos produtivos e, portanto, sobre os bens e serviços aos quais a população poderia ter acesso.

Há tempos os avanços da informática o apaixonam e por sua inspiração Cuba desenvolveu uma Universidade de Ciências da Informação, que se encontra entre as mais avançadas do mundo. Isso apesar da manutenção de um criminoso bloqueio que a Casa Branca se encarregou de estender ao acesso à internet, obrigando os países vizinhos a abster-se de oferecer conexão de banda larga a Cuba, sob pena de fechar o acesso de suas exportações ao mercado norte-americano. Graças à Venezuela bolivariana, essa chantagem será desfeita em pouco tempo. O Comandante sabe que as novas tecnologias de comunicação e informação são um poderoso instrumento de dominação ideológica, porém, dialeticamente, também podem ser uma formidável arma para conscientizar a população e facilitar a disseminação do pensamento crítico, como se faz desde os diversos cursos que oferecemos no PLED (Programa Latino-americano de Educação à Distância em Ciências Sociais). No entanto, sua inquietude não fica por aí: também lê sobre as mudanças climáticas, a crise econômica, os processos políticos e os temas candentes da realidade internacional. A lista seria interminável.

Se bem sua recuperação física e seu moderado aumento de peso descaracterizaram um pouco sua figura quixotesca do passado, seu intelecto e seu coração seguem sendo fiéis à nobre tradição de D. Quixote, e sua paixão em disparar críticas e fazer o bem é tão imensa quanto antes. É esse espírito que o levou a tomar de assalto o Moncada e, tempo depois, com Raul e Che, a iniciar a epopéia de Sierra Maestra. Tal como havia prognosticado, em seu célebre depoimento aos juízes do Moncada, a história o absolveu - e como! Também lhe deu razão quando em 1985 demonstrou matematicamente a impossibilidade de pagar a dívida externa, contrariando opiniões de sediciosos "especialistas" que elaboraram engenhosos artifícios para mostrar o contrário.

Também lhe sorriu em 92, no Encontro da Terra, celebrado no Rio de Janeiro (Eco-92), quando nos exatos sete minutos que cada participante tinha de direito denunciou a catástrofe ambiental e climática que se avizinhava. Sua intervenção foi fulminada como apocalíptica e meramente ideológica por uma multidão de pigmeus, os quais o pensamento convencional identificava como "realistas" e "especialistas". Quem agora se lembra daqueles anões? E o que dizer dos governantes ali presentes – Menem, Fujimori e outros da mesma laia – que fizeram ouvidos moucos diante do discurso de Fidel e que com sua criminosa indiferença agravaram o problema? E a história voltou a sentenciar a seu favor quando em 1998 convocou economistas para discutir a crise em gestação, em momentos em que o saber oficial assegurava que não existia – e que não existiria – crise, senão que, no máximo, uma transitória desaceleração do crescimento econômico. Uma década mais tarde os fatos consumados demonstrariam uma vez mais que a razão estava com Fidel.

Esse foi o homem que me honrou com o seu convite para discutir alguns aspectos de minha proposta. Interessou-lhe, sobretudo, o conceito de "burguesia imperial", concebido para caracterizar o entrelaçamento produzido entre as classes dominantes das principais metrópoles capitalistas e a forma como unificaram sua estratégia de dominação global. Seus integrantes se encontram anualmente em Davos para coordenar sua estratégia em escala mundial, revisar suas riquezas, harmonizar seus discursos e políticas e potencializar sua influência política e ideológica em nível internacional, sempre convidando governantes, "especialistas" e comunicadores sociais para transmitir a boa nova. Pediu-me detalhes, exemplos, razões, pelos quais utilizo tal conceito. Queixou-se de sua falta de tempo: não pôde receber vários presidentes e aos que atendeu não pôde dedicar o tempo desejado.

Falamos um pouco sobre a Argentina e me disse que havia lhe surpreendido positivamente a força e convicção que demonstrou a presidenta Cristina Fernandez de Kirchner e sua vontade de lutar, mas estava preocupado pelas seqüelas do conflito que no ano passado enfrentou o governo com os setores do campo. Ao examinar o panorama sócio-político latino-americano, expressou sua preocupação, porque o pêndulo ideológico, que na última década havia se movido para a esquerda – se bem que com diferente amplitude segundo alguns países –, poderia deter sua marcha ou, pior, iniciar uma reversão, ameaçando a estabilidade ou a continuidade dos governos progressistas na região. Sabe que o imperialismo está no encalço para "corrigir o rumo" de seus quintais regionais; conhece-o em detalhes e pode dizer, como Martí, que "conheço suas entranhas e minha pedra é a mesma de David". Com essa pedra teve a seu lado o Golias americano durante 50 anos e terminou isolando-o: em outubro de 2008, dos 192 países membros da ONU, 185 votaram a favor de uma resolução que exigia pôr fim ao bloqueio contra Cuba. Somente dois acompanharam o império em sua eterna humilhação: Israel, a mega-base militar estadunidense no Oriente Médio, e Palau, ilhota perdida no Pacífico povoada por 21.000 pessoas e utilizada como campo de testes da artilharia das Forças Armadas norte-americanas. Outras duas, as Ilhas Marshall (63.000 habitantes) e Micronésia (107.000) consideraram demais tamanha ignomínia e se abstiveram. No entanto, essa mensagem da comunidade universal é ignorada na Casa Branca e seus mandatários: o complexo industrial-militar. Esses querem aproveitar a crise para voltar a "disciplinar" a região e acabar com a primavera esquerdista.

A sucessão do governo da Coalizão no Chile parece inexoravelmente destinada a reinstalar um personagem da direita no Palácio de la Moneda, seja o situacionista Eduardo Frei ou o opositor Sebastián Piñera. E as previsões não são muito mais alentadoras para Argentina, Brasil e Uruguai. A crise econômica poderia ser o fator de impulsão dessa recomposição direitista, e tal ameaça não pode ser vista sem atenção. Caso se concretizasse, o isolamento de Venezuela, Bolívia e Equador poderia se agravar, pondo em risco a viabilidade política e econômica dos projetos transformadores atualmente em curso, com negativas consequências para Cuba. Também me fez saber de sua inquietação pela pressão a que está sendo submetido o governo de Fernando Lugo no Paraguai e a necessidade de que Argentina e Brasil adotem uma postura solidária e generosa em relação às duas grandes represas de Yaciretá e Itaipu, cuja propriedade compartilham com o Paraguai.

Já transcorrera uma hora e quarenta minutos de conversa e era preciso pôr fim a esse diálogo. Perguntei-lhe com todo o respeito se não seria possível que alguém nos tirasse uma foto, porque do contrário não seriam poucos os que me considerariam um impostor falando de uma entrevista que só teria existido na minha imaginação. Fidel aceitou de bom grado meu pedido, queixando-se jocosamente de que todos lhe dizem o mesmo e o obrigam a fotografar-se. Então, virou-se para um de seus colaboradores e disse: "Deixe-me ver. Tragam um espelho". Trazem-lhe, ele se olha e diz, brincando: "Hum, ficou bem!", e é certo. Estimulado pelo seu bom humor, aproveito para felicitá-lo por sua recuperação e dizer-lhe que está muito bem, com um aspecto tão bom como o mostrado por Ingrid Betancourt quando de sua misteriosa libertação pelo exército colombiano. Uma estrondosa gargalhada selou a piada. Preparamos-nos para a foto e ali, embalado pelo clima relaxado e alegre que se instalara na fase final de nossa conversa – muito distante da imagem de um hospital ou de uma sala de recuperação de um convalescente –, atrevi-me a lhe dizer que, com o logo da Adidas do uniforme dos atletas cubanos que trajava seus detratores, agora o criticariam por fazer publicidade a uma multinacional. Nova gargalhada e, rápido como um raio, com o luminoso olhar de sempre e seu dedo indicador repetidamente afundando em meu peito, me disse, mastigando cada sílaba: "É-que-eu-sou-uma-vítima-de-tua-burguesia-imperial". Mais risos, foto e um forte abraço de despedida que permite comprovar o bom estado muscular de seu físico e, com alívio, que teremos Comandante por mais tempo.

Atílio Boron é doutor em Ciência Política da Universidade de Harvard e professor titular de Teoria Política na UBA (Universidade de Buenos Aires). É autor do livro "Império e Imperialismo. Uma leitura crítica de Michael Hardt e Antonio Negri", publicado pela editora CLACSO em 2002.

Website: www.atilioboron.com

Trazido por Gabriel Brito, jornalista.